Crônica de domingo: O olhar de minha filha

Com a foto, vejo-me o adolescente trancado no quarto para me proteger do mundo, tendo como únicas companhias o violão e o sonho distante de crescer

Crônica de 28/11/2003

O colega Luiz Gonzaga Laier me manda uma foto da turma de 1963, do terceiro ginasial dos Maristas. Nela não estava o irmão Nazário, o “Sete Dedos”, como o chamávamos. Naqueles dias em que a foto foi tirada, o “Sete Dedos”, já idoso, me chamou para conversar depois da aula, me disse que era muito cedo para passar o que estava passando, com uma crise de adolescência braba, e a guerra aberta com meu pai. Guardei para sempre aquela conversa, aquele breve momento de compreensão na longa solidão que marcou minha adolescência.

Com a foto, vejo-me o adolescente trancado no quarto para me proteger do mundo, tendo como únicas companhias o violão e o sonho distante de crescer, de me libertar do julgamento diário, do rosto severo de meu pai, de seu cenho franzido, do ar de censura, dos dias seguidos sem falar comigo. E o desespero de não ter para onde ir, não ter a escolha, não poder abdicar da condição de filho.

É curiosa essa formação da minha geração, que faz com que dezenas de leitores escrevam sobre a coluna “O Olhar do Meu Pai”, a maioria absoluta solidária com seu pai, talvez para se iludir acerca da solidão do adolescente que já fomos, enfrentando o poder do adulto que nossos pais eram. Talvez porque muitos de nós passamos a ser o que nossos pais foram e perdemos a sensibilidade para o que nossos filhos são.

Quem se dá ao trabalho de entrar na cabeça de um adolescente, das nossas quase crianças, e perguntar como recebe essa carga diária de cobrança, de competição, essa pressão desmedida para que se diferencie, para que seja “vitorioso”, o uso permanente da repreensão e do remorso quando falha? Quem ainda se lembra do que é ser solitário na sua própria casa, porque não se cumpriram os planos que nossos pais nos impuseram?

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No final da longa corrida da vida, chegam os que venceram e os que falharam, poucos os que foram felizes. Como me lembro do breve período que antecedeu a entrada na luta, as serenatas, os amigos se valorizando mutuamente, como náufragos procurando a bóia da auto-estima até conseguir colocar o pé fora de casa.

Depois, na universidade, na profissão, tudo passa a ser atropelado pela luta diária, pela obsessão massacrante de não falhar, não desapontar as apostas que fizeram em você.

Varrem-se para baixo do tapete sensibilidade, poesia, o próprio culto carinhoso do passado, um processo violento que destrói a tantos pelo caminho, que faz a tantos se refugiar na bebida, na droga ou no trabalho. E aí há a necessidade de perder o medo, de olhar de perto o adolescente que já fomos, e nos vermos nas nossas crianças. Só assim se recomeça.

Por isso, das cartas que recebi sobre “O Olhar do Meu Pai”, nenhuma entendeu melhor o sentido do reencontro contido na coluna que o olhar de minha filha Mariana. A coluna a ajudou a compreender os movimentos do pai e a me presentear com uma declaração: “Você acabou por ser o pai que deve ter querido ter”.

O que ela não sabe é que a grande noite começou a se desfazer no dia em que ela e a irmã Luizinha, ambas aborrecentes, ambas sofrendo e sem entender o que se passava com o pai, me procuraram, uma de cada vez, e me perguntaram o que eu tinha, por que não falava, por que me fechava tanto. Contaram-me que sabiam como eu estava simplesmente olhando meus olhos, conferindo meu andar nervoso, os tiques da perna, mapeando um a um todos os meus sinais, da mesma maneira que eu fazia com meu pai. E eu nem me dava conta disso.

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Aí me lembrei do adolescente que fui, acordei a tempo e venci o grande fantasma que me acompanhava e nos acompanha desde o início da vida adulta, de repetir a sina solitária de nossos pais. A Mariana me escreveu: “Matusa, como as pequenas o chamam, brinca, conta histórias e toca violão sentado no chão da sala, acompanhado pela prole de quatro meninas mais a neta Clara, minha filha. Mariana, Luiza, Beatriz e Dora, todas com nome de música, cada uma com sua melodia”.

Como são lindos os pré-adolescentes, os adolescentes, os pós-adolescentes, para sempre nossas crianças.

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3 comentários

  1. O pai esquece
    Ao entrar no teu quarto e te vendo tão lindo, tão frágil, tão dependente, todo encolhido, senti uma dor lacerante no coração por tanto te exigir, cobrar, tolher, não grita, não corra, faça-não-faça… Perdoa, filho, o pai esquece. Então te passo estas anotações, para que, quando fores adulto, compreendas o que queria te ensinar mas nunca era o momento. Agora que dormes e quando já aprendi que sentimento só é positivo se partilhado, recebe estes registros de pai vivido para nunca ninguém te dizer que, de pai, não tivestes ensinamento.

    Aprecia o tempo de tua juventude, mas não te preocupes, pois só entenderás o Poder e a Beleza dessa fase quando ela já tiver ido com o vento.

    Não te preocupes com o futuro. Ou preocupa-te, mas saibas que os verdadeiros problemas serão aqueles que nunca passaram por tua cabecinha, do tipo que te pegará desprevenido às 6 horas da tarde de uma sexta feira cheia de promessas.

    Enfrenta os teus medos, um a cada dia. Não sejas descuidado com o coração dos outros, mas não toleres pessoas que sejam impacientes com o teu. Não perca tempo com inveja: às vezes estarás na parte de cima da roda gigante, às vezes estarás na parte mais baixa. É longa a jornada. E, lá no fim, vais encontrar a ti mesmo.

    Lembra-te dos elogios que recebes e esquece os insultos. E se conseguires, me conta como. Não te sintas culpado se não souberes o que queres da vida. As pessoas mais interessantes que conheço não sabiam, aos 22 anos, o que elas queriam fazer na vida. E algumas delas, sempre as mais interessantes, ainda não sabem, aos 40!

    Talvez te cases, talvez não. Talvez me dês netos, talvez não. Talvez te divorcies aos 40, mas talvez dances a lambada em tuas bodas de 75 anos de casamento. Não te engrandeças demais nem te repreendas em demasia. Qualquer escolha tem 50% de chance.

    Aproxima-te de teus pais. Nunca saberás quando eles se irão. Seja gentil com teus irmãos. Eles são os melhores elos com teu passado e provavelmente os que te suportarão no futuro.

    Compreendas que amigos vêm e vão. Exceto por alguns, que deves segurar.

    More numa cidade grande pelo menos uma vez na vida, mas parta antes que ela te endureça. More numa cidade praiana pelo menos uma vez na vida, mas te muda antes que ela te amoleça. E quando fores assaltado pela clara percepção de como nós vivemos não é como gostaríamos de viver, e constatamos com alguma angústia que as duas coisas não coincidem, então serás um homem crescido, meu filho.

    (Texto calcado num lindo e falso discurso de MARY SCHMICH a uma hipotética turma de formandos, mundialmente pirateado com o nome de “Every body’s free”, também falsamente atribuído a Kurt Vonnegut. Se os outros podem, porque não este seu humilde criado?).

  2. Filmes: de um lado, Cafarnaoum, de 2018, de Nadine Labaki, libânes; de outro Houve uma vez um verão (Summer of ’42), de 1971, de Robert Mulligan, estadunidense.

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