Crônica de Domingo: Salve o compositor popular, por Luis Nassif

Ouvir a coleção "Elis Regina no Fino da Bossa" não significa apenas relembrar a maior fase da maior das cantoras...

Crônica de 31/10/1994

Ouvir a coleção “Elis Regina no Fino da Bossa” não significa apenas relembrar a maior fase da maior das cantoras, conferir sua afinação irrepreensível, a capacidade de improviso e de blague, a espontaneidade esfuziante que o tempo tornaria amarga e rigorosa.

É também oportunidade de conferir a extraordinária importância que acabou assumindo para o país aquela rapaziada que começava a vida sob o comando de Elis.
Vivia-se a fase do protesto. A ditadura criara uma aura romântica em cima do governo anárquico deposto. A busca da liberdade e da justiça social incendiava os corações dos jovens poetas.

De lá para cá, muita água rolou. Seguiu-se o período do “milagre”, com o sucesso econômico vinha acompanhado de um arrocho cada vez mais imoral dos direitos políticos.

Os jovens poetas não recuavam.

Geraldo Vandré tornava-se o símbolo da resistência ao arbítrio com “Caminhando”. Caetano Velloso e Gilberto Gil iam além com “É proibido proibir”, enfrentando não só a censura dos donos do poder, como o patrulhamento dos donos da oposição. Outros, como Sidnei Miller, retratavam a desesperança com acordes soturnos, mas que sempre deixavam espaço para a volta da liberdade.

O fim da década mostraria o renascimento das lutas políticas. À frente, os grandes avalistas sempre eram músicos, pessoas como Chico Buarque, com seu “Vai Passar”, João Bosco e Aldir Blanc, com “O Bêbado e a Equilibrista”.

Completado o processo de redemocratização, revelou-se a face espúria de grupos organizados que tomaram conta do Estado. O peleguismo, o corporativismo e o fisiologismo passaram a grassar pesadamente. E nossos poetas recolheram armas.

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A Universidade oferecia quadros para avalizar as práticas políticas mais espúrias. O meio teatral borboleteava de poderoso em poderoso. Os cineastas perdiam-se em futricas e jogos miúdos de poder. Alguns cantores procuravam se aproveitar do momento para ocuparem espaço nos palanques dos políticos, visando as paradas de sucesso.

Mas eles, o primeiro time da música popular, mantinham-se permanentemente criativos e íntegros, ajudando com sua música extraordinária a consolidar o sentimento de Nação, num momento em que a vergonha de ser brasileiro dominava todos os quadrantes do país.

No auge da exposição da corrupção do governo Collor, um show da família Caymmi, no Anhembi, levava centenas de pessoas às lágrimas. Não era apenas a beleza da música. Era o contato com a parte mais íntegra de uma cultura, um dos poucos territórios que não havia sido maculado pela politização espúria, pelo oportunismo barato, pelo imediatismo.
Nos anos seguintes, assim como na ditadura, nas decepções dos primeiros tempos de democratização, foram os shows desses poetas que ajudaram a sinalizar os novos tempos, da recuperação da auto-estima e do projeto de Nação.

Shows de Chico Buarque, Paulinho da Viola, Gil e a Velha Guarda da Portela, Tom Jobim, não encerravam mais o fogo contestador dos jovens adolescentes do Fino da Bossa. Permitiam apenas, ao levar auditórios às lágrimas, a constatação de que há um grande país em construção, uma nação que caminha para ser íntegra, solidária e criativa. Como seus poetas populares.

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2 comentários

  1. E tome choro. Eu assisti o show da última turnê do Chico Buarque na semana do assassinato da Marielle. Ai , a beleza triste das músicas de Chico e a tragédia desse Brasil que se adivinhava …

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