Home Crônica A aula que um garçom cubano me deu, por Álvaro Nascimento

A aula que um garçom cubano me deu, por Álvaro Nascimento

A aula que um garçom cubano me deu, por Álvaro Nascimento

A aula que um garçom cubano me deu

por Álvaro Nascimento

Eu estava em um restaurante de Havana, em 1986, já quase ao final de meus quatro meses de curso de especialização sobre “Nova Ordem Informativa Internacional”, no Instituto de Periodismo José Marti. Saí à noite para comer uma pizza nas cercanias do bairro Vedado. Como sempre gostava de fazer enquanto lá estive (fosse nas praias, na fila do cinema, dentro dos ônibus …) procurei puxar conversa com o cidadão cubano comum, ter uma avaliação mais “cercana” do dia-a-dia da vida dele, sua relação com o Estado, com o trabalho. E o cidadão cubano da vez era o garçom da pizzaria.

O diálogo foi mais ou menos este, que jamais esqueci, e demonstra bem o porquê da continuidade daquele processo social durante tanto tempo, apesar do bloqueio estadunidense, do fim da URSS e da avalanche conservadora que toma conta do mundo.

Após pedir a pizza e uma cerveja, literalmente me meti na vida do garçom, que aparentava ter uns 40 anos (logo, era uma criança de cerca de dez anos quando ocorreu a revolução).

EU – Então, companheiro, como é viver aqui?

O garçom – Eu gosto daqui. Cuba é um País lindo, nosso povo é alegre, corajoso.

– Você nunca pensou em viver em outro lugar?

– Não me vejo vivendo em outro lugar. Acho que morreria de tristeza.

– Mas mesmo a revolução tendo conseguido tantas coisas na área da saúde, educação, acesso à terra, emprego, há problemas aqui.

– Claro que há problemas, aqui. Como há em todos os lugares do mundo.

(Querendo provocar o homem, engatei a segunda)

– Mas alguns problemas aqui já poderiam estar resolvidos pela revolução, você não acha? Lá se vão quase 30 anos. Principalmente algumas demandas da juventude, que nesses meses que estou aqui ficaram bem evidentes.

– A que problemas você se refere exatamente?

– Por exemplo, quando converso com jovens nas noitadas da Casa de La Música ou no Teatro América recebo propostas até curiosas. A que mais se repete é a de vender ou trocar este meu tênis vermelho (mostro o tênis) por alguma coisa, simplesmente porque não há tênis de várias cores em Cuba. São só duas ou três. Você não acha que esse tipo de coisa, que acaba criando uma demanda por parte da juventude, já poderia estar resolvido pela revolução? Afinal, é apenas uma diversificação de cores nos tênis.

– Isso é verdade, temos poucas cores de tênis, mesmo. Concordo com você e com parte de nossa juventude. Eu mesmo adoraria ter um tênis vermelho como o seu. Mas considere três coisas. Primeiro: não é tão simples assim, nem barato, diversificar as cores nos tênis. Requer importação de tinta, fracionamento da produção, manutenção de estoques diferenciados e permanentes de forma a oferecer essas alternativas em toda Cuba, enfim, um conjunto de providências que não são tão simples e exigem dinheiro. A segunda coisa a considerar é a prioridade disso, pois apesar de termos avançado muito, ainda temos urgências para resolver, de comida a habitação, de transporte a proteção do ambiente. Entre investir em cores diversificadas nos tênis e construir um só prédio que seja e que irá beneficiar 10 ou 20 famílias, qual seria a sua prioridade, sendo um País pobre como nós somos? E a terceira questão a se considerar, e já me desculpo se este não for o seu caso, é que muitos estrangeiros olham para as nossas necessidades e a vida de nosso povo comparando-as com o consumo em países como a França, Itália, Espanha, Estados Unidos e países muito mais ricos do que Cuba. Nós temos plena consciência de que demoraremos muito para chegar a este nível de satisfação em termos de consumo, porque nossas prioridades são outras e sei que você as conhece bem e estão na saúde, educação, emprego, moradia, transporte, ciência e tecnologia. Ao invés de nos comparar com estas sociedades que eu citei, o cidadão cubano sabe muito bem que, não fosse a revolução, nós hoje teríamos como necessidades da juventude não mais cores nos tênis, mas as mesmas necessidades que têm as populações do Haiti, República Dominicana, El Salvador, Guatemala, pois era esse o nosso destino histórico. Por isso eu tenho certeza de que os mesmos jovens cubanos que te propuseram adquirir seu tênis vermelho jamais se voltarão contra a revolução por causa disso. Eles sabem que suas demandas, além das cores de tênis, seriam mil vezes maiores caso não houvesse ocorrido o triunfo da Revolução.

EU (rindo) – OK, me convenciste. (OK, você me convenceu)

ELE (rindo também com cara de sacana e demonstrando bem como é o espírito cubano) – Pero antes de salir de Cuba, si quieres dame tus zapatos, me encantaria. (Mas antes de ir embora de Cuba, se você quiser me presentear seu tênis, vou adorar).

E foi buscar a minha pizza dando gargalhadas …

Álvaro Nascimento – jornalista, Doutor em Saúde Pública pelo IMS/UERJ.

Este artigo não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

1 COMMENT

  1. Minha vivência de 1 semana na Ilha em 2015 me fez repensar o que é pobreza.
    Desde lá entendi que o Brasil é incomparavelmente mais pobre que Cuba.
    Quantos no Brasil, tem educação, saúde, segurança e ocupação?
    Quantos entendem o contexto mundial que nos envolve?
    Disse-me um taxista no aeroporto de Havana: “Somos um país pobre, pero refletimos”!
    Nos dias seguintes compreendi o que me disse aquele cubano.
    Tenho vergonha de tudo que ocorre aqui, e quero voltar a Cuba por uns bons meses…

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Sair da versão mobile