A burrice nacional radiografada, por Rui Daher

Creio dever minha imodesta inteligência a meu pai e minha mãe Yolanda, ida muito mais tarde. Decidam lá no céu.

A burrice nacional radiografada

por Rui Daher

Neste 26 de agosto, vivo, meu pai completaria 99 anos. Não sei se gostaria de ser centenário. Tanto que morreu, em 1965, antes de completar os 44. Deixou-me com 19, também eu de agosto e filho único.

Batizaram-no, em São José do Rio Preto, SP, como Fritz Daher, um filho de árabes com nome germânico. Motivo: um médico alemão da cidade que atendia o casal de lavradores, Miguel e Maria, e seus rebentos.

Creio dever minha imodesta inteligência a meu pai e minha mãe Yolanda, ida muito mais tarde. Decidam lá no céu.

Aliás, há alguns dias, perguntei ao presidente do Conselho Celestial do Dominó de Botequim, Darcy Ribeiro, como lá são divididas as diversas gerações que desfrutam paz.

Do mesmo jeito que aí na Terra, respondeu-me o antropólogo:

– Os mais velhos, seculares, vão para outros setores e desenvolvem os mesmos fabulosos papéis que fizeram na Terra. Uma sucessão óbvia. Leia “Sobre o óbvio/Ensaios Insólitos”, (Editora Guanabara, RJ, 1986).

– Encontro?

– Talvez. Há outras edições.

– E o que dizes lá, Darcy?

– “A primeira obviedade é educacional”. Para isso fiz a Universidade de Brasília e os CIEP, com o Brizola. Outra: “os pobres vivem dos ricos; sem rico o mundo estaria incompleto, os pobres estariam perdidos”.

– Estranho, meio capitalista, não?

– Mas não é o que vocês têm para hoje? Ou não? Viu a jogada dos 600 reais?

Despeço-me de Darcy e lembro-me de meu pai, aniversariante. Foi médico-radiologista. Uns dizem que morreu de enfarte prematuramente por não usar os equipamentos de proteção necessários ao raio X. Outros que, em criança, adquiriu a doença de Chagas. Um barbeiro, vejam só. Nunca mais os frequentei.

Resta-me, assim, radiografar a burrice atual em território brasileiro, maior parte por falta de percepção educacional e política.

– De cérebro: recuperação da popularidade do Regente Insano Primeiro por R$ 600 em bolsos pobres;

– Da face: o Estado tem as duas faces da moeda, mas não quer dividir;

– De esôfago, traqueia, laringe: do governo refluem piadas escabrosas e pornográficas;

– Do estômago: incapacidade total de digerir os filhos do Capitão;

– Do intestino e caminhos para o exterior: canais recônditos que permitem defecar o nada aproveitável. O saldo é levado, em latinhas de metal. Em geral, detecta-se vermes;

– Dos aparelhos genitais: tirando o 04, poucos sabem o que fazer;

– Dos membros inferiores: detectada capacidade de somente se moverem para trás.

– Dos dedos dos pés: infestação fúngica.

Conclusão do laboratório de imagens BRD: vocês se foderam, escória! “O vagão do lixo passa e o trem da história fica!”

Inté!

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