A escrita capta e revela e faz do oculto uma vida visível, por Maíra Vasconcelos

Como se a ficção revelasse a sua própria verdade. – O galho é muda. Ela era considerada erva daninha. Agora nas plantações são mantidas, pois fertilizam o solo.

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A escrita capta e revela e faz do oculto uma vida visível

por Maíra Vasconcelos

Ouça a crônica aqui… 111216_001

Uma das razões para escrever essas crônicas, ultimamente, tem sido a busca, pois como sempre é uma questão de busca, agora pela ficção no dia a dia. Digo, em um dia comum, como geralmente são todos os dias, encontrar a ficção. Isso que não é nada tão especial, nem mesmo espetacular, como costumam ser as manchetes de jornal. Mas a ficção se esconde. Tão disfarçada como se não pudesse até mesmo ser vista. Não fosse a escrita para captar e revelar e fazer do oculto uma vida visível.

– Essa plantinha floresce toda manhã. À tarde, só ficam as folhas. Nasceu do nada. Você sabe o nome? Minhas vizinhas falavam assim tão atentamente sobre uma planta, que, naquele momento, quase duvidei que ela existisse, realmente. Ou o que teria essa planta para atrair tamanha observação e generosidade e comunhão na entrega das falas? – O nome dela é trapoeraba. Ela é uma panc, planta alimentícia não convencional. Aprendi no curso de agroecologia. Pode ser usada para preparar vários pratos. Vou ler aqui pra você. As folhas podem ser ingeridas, melhor se refogadas ou escaldadas. É uma planta diurética, usada para chá, na medicina popular, evita retenção de líquidos, elimina toxinas do organismo e previne envelhecimento precoce. Auxilia na melhora de cistites e inflamações do aparelho urinário.

Davam tamanha atenção a essa planta, como sendo a coisa mais importante que elas, ali juntas, poderiam ter naquele dia. – Pode comer as flores in natura?! Olha só… A daqui de casa deve ter sido trazida por passarinhos, porque eu não plantei. O galho é muda?

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Com esse ar de preciosidade e importância nas falas, a planta até parecia de mentira e, por isso, talvez, colocada realmente no seu devido lugar. Como se a ficção revelasse a sua própria verdade. – O galho é muda. Ela era considerada erva daninha. Agora nas plantações são mantidas, pois fertilizam o solo. Eu tenho a roxa que é da mesma família, mas agora está sem flor. A Azul tenho na grama. Sempre que podo a grama deixo a azul. A roxa tem a folha peludinha, a azul tem a folha lisa.

Ao escutá-las, entendi que escrever essa conversa poderia, talvez, revelar a ficção escondida nisso que é tão comum, como falar de plantas. Como se a conversa das minhas vizinhas mostrasse o tom em que devemos falar sobre a natureza. Ou apenas, também, como devemos cuidar das plantas. Das vidas habitadas fora de nós mesmos.

 

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