A Extinção da Cura (Justiça da Escrita), por Eliseu Raphael Venturi

Há algo que nos leva às decisões que contrariam esta intuição e que terminam ou em uma dolorosa confirmação, ou que surpreendem pela possibilidade de novos prazeres

Oliviero Gatti. Six ears, 1619.

A Extinção da Cura (Justiça da Escrita)

por Eliseu Raphael Venturi

“[…] escrever não é apenas uma atividade técnica, é uma prática corporal de gozo” (Barthes).

Apenas a justiça da escrita pode nos associar – você, eu, este “nos” é individual, restritamente individual, quem quiser rotular de “subjetivismo” divirta-se erroneamente – a um tempo qualquer, um tempo escolhido, vivido, rememorado ou apenas imaginado mesmo, o mais normal deles e geral imiscuído nos demais, ou, ainda, um tempo qualquer desejado com um fervor inexplicável, que alguns nominariam “vidas passadas”, outros “identidade espiritual” e um tanto de alguns: “deleites estéticos”. 

Ou, não fosse isso, não seríamos seres de afeto cercados de palavrórios, que não são escrita, mas são os tais dos dispositivos e aparatos de cooptação que conhecemos tão bem e aos quais nos vinculamos. 

No mais, cumpriria investigar o que seria a “associação” que apenas a justiça da escrita é capaz de propiciar, e que não é uma associação do tipo adstrição, mímese, verdade e termos afins, sendo, no máximo, uma associação editável, que pode ou não se dar em termos de falseabilidade e, no mais, como se alguém fosse cometer a insanidade de verificar o passado do sujeito ou, ainda, testar suas proposições em face dos efeitos subjetivos que ele mesmo declara sobre sua experiência singular. É triste, mas neuróticos precisam aceitar. 

Há quem seja fissurado pelo Egito antigo, assim como fendido pelo Século XIX ou, digamos, nutra furores de admiração por campos de concentração e suas lógicas envoltas (creio, na posição do carrasco, a maioria dos que conheço). 

Se a música e o olfato têm as conexões absurdas com as viagens do tempo factíveis, tornadas imediatas na atmosfera e outras sensações que se sente na carne, e salvo o aparato todo de se lançar ao espaço sideral e retornar para fazer uma viagem do tempo às avessas, resta apenas à escrita a possibilidade de associação, o que é uma função de sua justiça, única forma existente para este termo gasto. 

Seria o transporte sem deslocamento e por isso não há nada de físico propriamente envolvido em termos corporais, não que isso importasse, embora possa ser entendido como uma representação mental ou corporal de fenômenos físico-químicos que devem se dar a um nível muito microscópico, talvez por isso as imagéticas abstratas remontem tão facilmente a estes universos, como um tipo de realismo ainda pouco compreendido em razão de motivos da ordem, exclusivamente, da proporção. 

Há algo relacionado ao autoconhecimento que nos permite tomar escolhas em determinado momento de acúmulo de um grau de experiências pelas quais deduzimos os efeitos de situações em nossa subjetividade; por que insistir ocupa o mesmo nível do por que desistir. 

Há algo que nos leva às decisões que contrariam esta intuição e que terminam ou em uma dolorosa confirmação, ou que surpreendem pela possibilidade de novos prazeres, jamais imaginados, inclusive, mesmo negados na primeira impressão. 

Há algo na justiça da escrita que nos impõe, então, a disposição e a aceitação de que este movimento, por mais incômodo que seja, estará intrincado na carne e que é nela que se procurará, então, a referência última desta experiência a qual, por milhares de motivos, seja por predileção ou cólera, por vício ou defeito moral, lançou-se ao plano da paixão, com tudo o que há de sofrimento ali envolvido. Ou alguém fora da insanidade veria no martírio alguma expressão de prazer corporal? 

Vencido isso, o campo das associações estará aberto e será vencido por tudo o que houver das forças e do poder da criatividade. 

E, então, milhares de profissões da cura estarão extintas.

 

Leia também:  Editoração, por Eliseu Raphael Venturi 

Eliseu Raphael Venturi é radicado em Curitiba-PR.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome