A homenagem da Vila Isabel a Martinho da Vila

Por Marco Antonio L.

Wander Lourenço: Evoé, Martinho!…

No Vermelho

Que me desculpe o poeta Noel Rosa; mas, com toda reverência e respeito, neste Carnaval a Vila Isabel foi do preto velho Martinho!… Salve Martinho da Vila, isabelamente campeã de 2013!… 

Por Wander Lourenço, no Jornal do Brasil

Martinho da Vila

Martinho da Vila é um dos principais personagens da Vila Isabel

Decerto, acadêmicos, jurados e foliões não se deram conta de que aquele enredo-roçado A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo, por assinatura de Rosa Magalhães em disfarces de patrocínio e lira, era a sua terra natal a desfilar retilínea pela avenida de modo a empolgar o coração carnavalesco do povo brasileiro, em homenagem ao malandro vascaíno de Duas Barras, interior do estado do Rio de Janeiro. E era seu aniversário de 75 anos – samba e boêmia –, em sintonia com a batuta do mestre de bateria da agremiação azul e branco da Zona Norte carioca a orquestrar a regência dos surdos, cuícas e tamborins em saudação ao partideiro de Vila Isabel – Evoé, Martinho!… 

Que maravilha assistir à plateia a cantar a plenos pulmões os versos de um bamba matreiro que, certa feita, aconselhou, em dó maior dos adversários das outras escolas de samba, a desafiar os contratempos do destino ao renascer das cinzas nos festejos de Momo da Marquês de Sapucaí: “Sambar na avenida / De azul e branco / É o nosso papel / Mostrando pro povo / Que o berço do samba / É em Vila Isabel”. Em tom de paródia, poderia dizer que a minha única alegria é ver-te cantar, com o olhar sereno a traduzir o vozear sincopado de um exímio sambista, compositor de terreiro de umbanda em oratório de senzala. Canta, canta, minha gente!… Deixar a tristeza pra lá, meu nobre Poeta, que, por mais magnifica que seja a invenção de Hermes e Orfeu, na passarela do samba deságua em canto negro da Mãe África a aflorar em imagem e semelhança dos santos e orixás travestidos de roceiros, matutos e caipiras, a reverenciar um semblante de príncipe-regente do Carnaval a acenar para a imortalidade do mausoléu dos sambistas.

Quando a poesia se propõe a simplificar, vagarosamente, a vida, meu nobre menestrel, é que vem a vontade de rememorar que é tão bonita a nossa escola, é tão bom cantarolar o sonho sonhado… Quantas quizombas e batucadas, Martinho da Vila!… A festa da raça a celebrar-te pelas mãos do mestre-sala em trajes de espantalho, que assombra quebranto e mau-olhado ao esfaimar-se no milharal da majestosa porta-estandarte. Quiçá, o roçado da fazenda das fantasias do desfile pudesse ser cultivado pelo teu velho colono pai a te acalentar com toadas de reisado ou jongo. Que Deus o tenha na força de tua criação eterna, Martinho-Rei!… E que os deuses do Carnaval e suas bacantes reverenciem a tua graça de batismo em esplêndido diminutivo, híbrido de mar e terra por se inscrever em posteridade de ritmo e luz. Evoé, caboclo das águas do rio!…

Dos teus rastros quilombolas dos Pretos Forros, a glória, em brincadeira de infância, qual noiva de casamento da roça, se compromete em revelar-te ao Rio de Janeiro por Áfricas a desvendá-lo em enigmas de liberdade. Salve a tua sabedoria atávica de ouro e prata, Zumbi das serenatas!… Que as tuas férteis primaveras se imortalizem em cânticos de louvor a Nossa Senhora de Fátima ou pontos de macumba em homenagem a Iemanjá, sincrético Dionísio das favelas!… Que a tua filosofia se bifurque por mãos alheias e se reproduza em cada gesto humano a se instaurar pela generosidade que te acompanha por becos dos morros, veredas de mata e castelos de areia. Que o engenho de teu talento de gênio do cancioneiro popular se paute pela inspiração que ilumina os igarapés do teu ser que brota por entre encruzilhadas e procissões, a entoar um samba-enredo profano repleto de religiosidade multiétnica, provinda dos teus longínquos ancestrais de Benguela ou Alfama.

Que, enfim, seja interminável o teu fulgor de artista e imortal se torne a força divina de tua voz que te ampara em preces e rimas soletradas, porque és um soberano em reino de faz de conta tão verossímil. É o maestro das querências dos súditos que, por sobre os teus rastros de Curupira negro, se alinham em infindos aplausos pela sublime coreografia humana a cultuar o singular exemplo de vida ou Vila – Evoé, Martinho!… 

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). [email protected]

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