A musa de São João da Boa Vista

Crônica de 30.06.2006

A musa de São João da Boa Vista

Leilah Assumpção me liga para informar o falecimento de Lúcia Azevedo Costa. Vocês não imaginam quem foi ela. Morreu na semana passada, aos 90 anos em Mococa, para onde se mudou há dez anos, para morar com uma irmã. Voltou para ser enterrada em São João da Boa Vista.

Nos anos 30 a 60 não houve mulher mais cobiçada em São João, Poços, São Paulo e arredores. Quem me falou pela primeira vez dela foi o banqueiro Walther Moreira Salles. No auge do seu poder, um dos homens mais influentes do país, Francisco Campos, o Chico Ciência, pai da “Polaca” (a Constituição do Estado Novo) veio a Poços de Caldas a passeio. Rodando pela cidade conheceu Lúcia. Enlouqueceu. Imediatamente incumbiu seu chefe de gabinete, o jovem Aloysio Salles, de ir a São João com uma proposta irrecusável para Lúcia. Campos era casado com uma mulher com problemas mentais, não existia o divórcio no Brasil, mas ele assegurava que, se ela aceitasse casar com ele, promulgaria uma Lei do Divórcio. Qualquer outra mulher casaria até com um bode, para ser merecedora de tal demonstração de poder. Aloysio voltou com um sonoro NÃO na orelha.

— Ninguém resistia à beleza da Lúcia, me dizia o embaixador Walther, completando o causo.

— Nem o senhor?, provoquei.

— Eu? Fiquei profundamente apaixonado, mas ela também não me quis.

Lembrava-se de Lúcia na minha adolescência em São João, nas rodadas musicais que fazíamos com as filhas e sobrinhas do Teófilo de Andrade. Ela já era uma senhora, bonita, atenciosa, mas já sem chamar a atenção. E eu sem sequer ter idéia da lenda que estava à minha frente.

Depois que o Dr. Walther me contou as maravilhas de Lúcia, fui atrás de minhas fontes poços caldenses para recolher mais histórias. Não existe melhor fonte que o professor Antonio Cândido. Que as poços caldenses não nos ouçam, mas o professor costumava dizer que as poços caldenses de seu tempo eram admiráveis, educadas, simpáticas, sabiam receber como ninguém. Mas a beleza das sanjoanenses era insuperável.

Em uma das conversas com ele, perguntei da deusa Lúcia. Ele me contou que, professor da Faculdade de Filosofia e Letras, certa vez foi entrevistar uma aula que se candidatava ao curso. Deu de cara com a Lúcia.

— Para mim, foi uma revanche!, me contou o mestre.

Indaguei a razão, o que a deusa poderia ter cometido contra ele:

— Me desprezou quando eu era adolescente!

Também o professor apaixonou-se perdidamente por ela, com um agravante: devia ser uns quatro anos mais novo.

Lúcia saiu de São João, fez Filosofia, Pedagogia, Psicologia. Escreveu um livro, o “Quem é Você”. Mas sua única paixão foi a Igreja e as obras sociais. Quando passou por São João Dom David Picão, um bispo revolucionário e bastante sedutor, tornou-se sua assistente quando foi transferido para Santos. Mas a sedução de Dom Picão foi para outras belas mulheres de São João. Para Lúcia, interessava apenas as obras sociais.

Trabalhou na Caetano de Campos e em inúmeras obras sociais e evangélicas vida afora.

Deixou uma multidão de fãs, de Plínio de Arruda Sampaio, cuja mulher Marieta era sua prima, ao prefeito de São Paulo José Serra.

Porque jamais se casou? Nos cursos que dava, Lucia deixava transparecer que casamento era responsabilidade muito grande. Cuidar do mundo, pelo visto, era tarefa mais leve.

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9 comentários

  1. A musa e a poeta

    São João da Boa Vista é berço (dos melhores), pois também é a terra natal da poeta Orides Fontela, cuja beleza deixou em textos memoráveis.

  2. Tanto texto e nenhuma

    Tanto texto e nenhuma fotinha. E eu comendo letra na esperança de que ao fim e ao cabo de tamanha aventura seria agraciado com, ao menos um imagem da moça. Sovina!

  3. Pensei que fosse a Pagu (não

    Pensei que fosse a Pagu (não era de S. João tb ?) ou a pianista Guiomar Novaes. Dessa Lucia  jamais ouvi falar.

    Parece que havia outra famosa, mas por outros motivos, sei lá ! Sei que a chamavam de Dona alguma coisa , um apelido.

  4. Bem que o Nassif poderia

    Bem que o Nassif poderia conseguir uma foto desta musa que enlouqueceu tantos homens poderosos quando ainda jovem e postar aqui no blog só para a gente matar a curiosidade….rs

  5. outras homenagens

    “Que as poços caldenses não nos ouçam, mas o professor costumava dizer que as poços caldenses de seu tempo eram admiráveis, educadas, simpáticas, sabiam receber como ninguém.”

     

    Com o perdão do comentário, rumores dizem que também eram admiráveis, educadas, simpáticas – e sabiam receber melhor ainda – as moças do bordel de Poços de Calda, desde que se pagasse bem… Mas como essas se dedicavam à Igreja dos maus-costumes, não puderam disputar o título de “belas musas” e caíram no esquecimento. O esquecimento absoluto de Manuel Bandeira, que também escreveu:

    “Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.

    Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecados.

    Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca

    Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer “Meu Deus valei-me”.

     

    Assim, aproveitando o 8 de março, agrego a essa homenagem a Lucia, esses 4 versos homenageando às santinhas olvidadas e imperfeitas do interior.  

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