A noiva de Beirute e a explosão, por Urariano Mota

Nas imagens, a sua felicidade até parece um modo retrato, daqueles no porta-retratos, em que só aparecem definidas as linhas do rosto até o pescoço.

A noiva de Beirute e a explosão

por Urariano Mota

As notícias quiseram mostrar o absurdo da desgraça e da felicidade juntas:

“A grande explosão em Beirute, no Líbano, interrompeu o ensaio fotográfico de uma noiva em uma praça no centro da cidade. A tragédia já deixou ao menos 135 mortos e mais de 5.000 feridos.

Em um vídeo, a noiva Israa Seblani aparece sorrindo e com as mãos na cintura. A câmera se movimenta e mostra a cauda do vestido branco longo e um buquê de flores que está no chão sobre o véu”.

No vídeo, a noiva aparece aqui

As imagens falam. Em Beirute, a noiva está linda, linda além do raro vestido. A beleza vem do seu rosto, do seu sorriso, da delícia do desfrute do seu sonhado instante. Dela vem um encanto pra gente, tanto por saber o que virá, quanto por vê-la só, alienada do sofrimento próximo. Mas é um encanto por onde passa uma nuvem no coração, sombra que parece cobrir a sua beleza. Então vem uma pergunta, quando refletimos sobre as suas imagens: em  que pensava a linda noiva nos momentos antes de tudo?

Nela, parecia haver uma comunhão de êxtase que só a poesia e os transportes místicos conseguem. Um gozo, um prazer mais alto, um doce orgasmo antecipado. Mas como seria lícito e razoável esperar que a jovem sentisse o gosto doce e abrasante do amor, o chamado gosto alienante do amor, e como uma pessoa adivinhatória, ou um ser antecipado, gozasse as possibilidades apaixonantes, enquanto assim se encontra envolta na fortuna do seu lindo vestido?

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A noiva não se pergunta se tem direito à felicidade quando tantas pessoas se despedaçam em torno e o seu país afunda. Longe dela no coração. Para que se perguntar um desconforto? Ela não é filósofa, da dura e ética filosofia,  e portanto não sabe, nem quer saber que mais importante que a felicidade é ser digna da felicidade. Não. Enquanto venta uma alegria em Beirute, tudo, todo o futuro menos a filosofia.

Nas imagens, a sua felicidade até parece um modo retrato, daqueles no porta-retratos, em que só aparecem definidas as linhas do rosto até o pescoço. Tão contente de si. Mas a felicidade seria um produto, o seu vestido de noiva? Seria a satisfação de ser dona dessa coisa démodé, tão fora de época e dos  costumes das mulheres que amam sem tais pétalas da alta-costura? Para ela,  o vestido de noiva expressa apenas um marido, um lar e a felicidade. Apenas. E tudo em um casamento, ali, enquanto dá voltas ao rosto suave em Beirute.

Nessa vista do que ela poderia ser, estranhamos que o seu companheiro não se mostre aos olhos. Ela é como uma felicidade no seu próprio objeto, a mulher feliz com o marido que não se vê. Nós, silenciosos, acompanhamos como espectadores e a compreensão de que a felicidade é possível,  mas como uma necessidade que faz do barro a forma do que manda o desejo. Branco, esvoaçante ao vento de Beirute. Ela não sabe, nem imagina que a felicidade dura menos que o esperado. Mas para que prever o golpe que virá? As previsões devem ser feitas para a realização do amor no futuro.

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Prever, adivinhar, não estava no seu encanto. Em um mundo de guerra ela só deseja ser feliz. Nem que seja por instantes de felicidade. De repente, a explosão.

*Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/a-noiva-de-beirute-e-a-explosao/

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