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a pós-verdade e a velha precaução, por Zê Carota

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a pós-verdade e a velha precaução, por Zê Carota

a pós-verdade e a velha precaução

por Zê Carota

Dona Ricardina já desconfiava que o esposo, Clóvis, andava ciscando fubá noutras hortas, e pudera: almoxarife numa fábrica de parafusos, o Clóvis nunca se preocupara com o que vestir para ir ao serviço, mas, de uns meses pra cá, dera pra vestir camisas passadas e engomadas por ele mesmo, e após fazer a barba – o que passara a fazer todos os dias, não mais apenas aos domingos –, borrifar Lancaster com tal fartura que a asmática vizinha, Dona Zizi, passou a ter crises matinais quase fatais.

noite lá, Clóvis chega em casa do serviço, mal a cumprimenta, chispa pra lavanderia, tira a camisa, abre a bica do tanque, pega a barra do sabão de coco, mas, distraído, não vê Dona Ricardina, desconfiada daquele proceder, chegar por trás e tomar a camisa de suas mãos, começando a vistoria até encontrar a razão daquele proceder: na gola, uma mancha carmim.

– explique-se – ordenou, resoluta.
– o Barroso, desengonçado que só, derramou refresco de uva em mim.
– uva ou morango?
– uva, mas ralinho, ralinho…
– sei. e por que não lavou na hora, em vez de deixar pra lavar aqui?
– Ricardina, não faz número. você sabe o que essa situação representa.
– não, não sei, me explica. e me convença, Clóvis Mauro dos Anjos – decretou, e dizer-lhe o nome como no RG equivalia a iniciar um depoimento na chefatura de polícia, por atitude suspeita, e se não colar, ó…
– isso é a pós-verdade, nunca ouviu falar?
– não. desembucha.

e o Clóvis fez um discurso especial, qual estivesse não na delegacia, mas numa banca de mestrado em Linguística, ao qual Dona Ricardina reagiu de forma enigmática: “reze, Clóvis, reze”.

na manhã seguinte, quando Clóvis saía para o serviço, Dona Ricardina ordenou: “venha aqui”. Clóvis girou nos calcanhares e se chegou em Ricardina, que, de pronto, deu-lhe uns catiripapos bem assentados. aturdido, Clóvis reagiu:

– que bicho te mordeu, criatura??!!!
– nenhum. isso é a pré coça, nunca ouviu falar?
– não. diabo é isso?
– é o que tu vai tomar todo dia, de segunda a sexta, antes de ir pro serviço, até eu panhar confiança que Barroso não derruba mais refresco de uva no teu colarinho.

desde então, as camisas de Clóvis, se ele quiser, podem ser vestidas novamente sem lavar, tamanha limpeza mesmo após um dia inteiro de uso.
manchas no pescoço, só mesmo uma e outra, quando Dona Ricardina pesa a mão um cadinho mais, mas aí, claro, ela não reclama.
nem ele.

Z Carota é jornalista e escritor, autor de “dropz” (Editora Penalux) e “a beleza que existe” (Páginas Editora)
Facebook: https://www.facebook.com/marcelo.carota.92/
Instagram: @zecarota
Twitter: @zcarota1

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