A quem a carapuça servir, por Jean Pierre Chauvin

Cuida-te. Enquanto isso, verei o que posso fazer pelos que andam a cair de fome, frio e falta de oportunidades, cidade afora.

A quem a carapuça servir

por Jean Pierre Chauvin

 

São Paulo, 5 de julho de 2019

 

Excelentíssimo Senhor Capacho,

Como tem passado? Bem? Por aqui, nem tanto.

Perdoa a intimidade, data venia, tu que primas pela coerência; que cuidas tão diligentemente do comércio e das fronteiras do país; que te emocionas com atos ditos cívicos dos EUA e os gestos de inquebrantável boa-fé; que zela, pai bondoso que és, pelas crianças do teu país que passam fome (e agora poderão custear o próprio prato de comida), já examinaste bem os arredores onde moras? Ouvi dizer que esta seria a pobreza que aquele novo governo erradicaria.

Ah, entendo… No teu bairro não circulam pessoas indesejáveis. E se lá houvesse, não aguentariam muito tempo até pedir que olhes por elas. Quase um mundo fechado, este em que resides, não? Privilégio teu, fico feliz. Foi o que me contaram. Isso, é claro, supondo que permaneças mais tempo nesta neocolônia que naquele país do Norte, que sabota economias, invade territórios em nome da democracia, é especialista em derrubar regimes em nome da liberdade…

Não adivinhaste? Dou-te, sem cobrar propina, nova dica: aquela nação Trump D’oeil, que recebe tão bem a penca de brazucas patriotas entreguistas. Agora ficou fácil, heim? Diz, diz. Tem gente que se veste feito eles e até bate continência quando avista a bandeira listrada.

Olha, que bacana: morar bem não é exclusividade tua. Recentemente aconteceu algo parecido num Shopping daquele bairro, que traduzindo-te, soa como Cidade da Higiene… Gente de bem, né? Imagina tamanho escrúpulo em assinar um abaixo-assinado para afastar os miseráveis? Ninguém deveria ser obrigado a ver gente remelenta, dobrada de fome e sede, na quadra por onde passa, certo? Faltou esforço a eles, não é? Hoje em dia, basta procurar emprego que se encontra. Ora, ora. Ainda mais agora que a Reforma Trabalhista flexibilizou as relações de trabalho, o que mais tem é banco oferecendo crédito de mentira para gente de verdade.

Mas, ora, ora… que tanto estou a escrever? Santa prolixidade! Se não sabes do que se passa em teu país (é ao Brasil que serves, é em nosso povo que pensas, estou certo?) que dirás do condomínio onde habitas, não é mesmo? Imagina tu como se sente aquele sujeito que ainda acredita na boa-vontade do patrão cujas dívidas foram perdoadas pelo des-governo? E aquela criatura que botou fé na cura gay do côn-ju-ge – este, por sinal, tão temente a Deus (mas Deus não é Amor?) quanto homófóbico?

Que tem parece?

Mundinho tacanho e contraditório, heim? Mas tu, que és isento, pleno de graça e ainda encontra amigos teus, na Avenida mais cara do hemisfério sul (aquela que acolhe bandas de rock, pop, gospel e todo o resto, mas espanca e subtrai a mercadoria dos vendedores ambulantes), percebes os limites da justiça, da boa-fé e da verdade? Ou serão itens de perfumaria, diante da tua convicção num país forte, ainda que só economicamente, sem mercado consumidor, nem gente educada, tampouco satisfeita?

“Convicção”, heim? Palavrinha chata. Prefiro evitá-la. Nunca se sabe quando vão divulgar nossa conversa, via Whats ou Telegram… Mas também tem aquela outra, “Verdade”… verdade. Palavra boa. Tu gostas dela? Procuro cultivá-la, mas como anda em falta, nem sempre chego às conclusões mais adequadas, segundo os cegos que andam a dizer que é necessário sacrificar-se pelo bem do país.

Porém, mudemos de assunto.

É verdade que aquele sujeito que revendia carros com incrível margem de lucro optou por sumir? Onde estavam os agentes da lei, tão certeiros ao localizar endereços de pessoas muito mais importantes, reconhecidas mundialmente?

Queres uma anedota das boas?

Tu nem imaginas! Hoje, num restaurante, escutei o diálogo de duas funcionárias de lá. Uma questionava o teor da “Reforma” da Previdência (reforma é coisa positiva, né? Ah, tá, achei que fosse paranoia minha sugerir outro substantivo em seu lugar), ao que a colega respondeu que “tentavam aprovar reforma desde antes”. Percebes quão revelador é esse discurso? Ela não disse o quê, nem quem, nem quando, nem como. Suspeito que é assim, vagamente, que funciona a (vaga)mente daquele terço que depositou o voto, armado ou não, nas urnas, em outubro de 2018. E por falar em “depósito”, como se bota ordem sem ordem?

Que insensibilidade. Perdoa-me. Escrevi para saber notícias tuas… e acabei por desabafar. Mas, olha, se quiseres ouço dizer que existe um novo meio, realmente seguro, de trocar mensagens. Fico a imaginar a pilha em que andam aqueles que temem gravadores e câmeras acionadas, enquanto fazem comentários inusitados – ainda que bem-intencionados, apesar de fora de contexto. Pensando bem, o que temer no país em que a lei é para todos, não?

Cuida-te. Enquanto isso, verei o que posso fazer pelos que andam a cair de fome, frio e falta de oportunidades, cidade afora.

Post scriptum: Em tempo, sou professor, o que talvez explique nossas radicais diferenças. Costumo desejar o bem de meus alunos(as) – ainda que andem a gravar minhas aulas – supondo que representem, no futuro, as pessoas que não tiverem acesso ao ensino, suponho, de razoável qualidade.

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