A reunião, por Rômulo Moreira

Há exatos trinta e três anos haviam se visto pela última vez. Foi na festa de formatura da turma do ensino médio que, àquela época, chamava-se colegial.

A reunião

por Rômulo Moreira

Passava do meio-dia e quase todos e quase todas já estavam lá reunidos e reunidas. Era uma casa enorme, mas nada elegante. Não havia árvores e nada parecido. Mas era muito grande. Sem área verde, porém. Uma piscina com ares presunçosamente olímpicos ficava ao centro do fundo da mansão.

Havia um bar ao lado da churrasqueira de cimento. Umas mesas espalhadas ao redor da piscina presunçosa, algumas com uns sombreiros mexicanos e os garçons perambulando, suando em bicas, com aquelas fardas já encardidas de tanto suor. Quase todos negros retintos e uns poucos brancos pobres e envelhecidos já, justamente pelo sol e pelo cansaço de tanta bandeja, para lá e para cá.

Tudo muito previsível, portanto. Via-se que era uma casa bem tratada, de gente rica e bem tratada. Estava quase todo mundo que combinou de estar presente. Todos sozinhos, sem filhos, marido, mulher, etc. Os mortos não vieram. Nem sequer foram convidados.

Pela primeira vez estava quase toda a gente reunida. Há exatos trinta e três anos haviam se visto pela última vez. Foi na festa de formatura da turma do ensino médio que, àquela época, chamava-se colegial.

Eram velhos e velhas agora, tão diferentes de outrora quando eram jovens e cheios de esperanças, expectativas, ambições, forças, amores, paixões, delírios e pouquíssimas tristezas e responsabilidades. Estavam diferentes, uns tristes fingindo-se alegres. Outros alegres, fingindo-se infelizes.

Há trinta e três anos eu não os encontrava nem com elas. Escolhi uma mesa, logo a primeira que avistei, para sentar, sozinho que estava, tímido e temeroso do que ia encontrar. Logo chegaram Marcelo e Bruna. Roberto e Paulo vieram em seguida e formamos o quarteto da primeira mesa.

A minha intenção era demorar muitíssimo pouco tempo. O suficiente para falar com alguém, muito rapidamente e sair à francesa, como sempre o fazia. Pedi ao garçom, suarento, que me servisse um uísque, por favor, disse. E, então, coloquei umas pedras de gelo em um copo largo e vistoso, e fiquei aguardando a minha bebida. E ela chegou pelas mãos do mesmo garçom, suarento e pobre.

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Logo todas as mesas estavam cheias de nós, dos velhos e das velhas moças. Falei com quase todos, e quase com todas elas também. Acabei ficando muito mais tempo, o tempo todo eu fiquei, até ficar embriagado de bebida e de conversa, e de lembranças. Quantas histórias eu as ouvi. Quantos lamentos e frustrações. Quantos sucessos também.

No meio da tarde ela chegou. Tinha cinquenta anos e ainda trazia a beleza física da juventude. Propositadamente, creio, não veio estar conosco naquela mesa redonda com o chapéu de mexicano.

Como Brás viu Virgília, eu “via-a agora não qual era, mas qual fora, quais forâmos ambos, porque um Ezequias misterioso fizera recuar o sol até os dias juvenis.[1] Como ela não veio, e posto já ter tomado umas doses muitas de uísque, dirigi-me a ela, aproveitando-me de um momento de distração, quando estava voltando do banheiro feminino. Falamo-nos como se não nos tivéssemos visto até então. Fingimos surpresa com o encontro.

E como Berg viu em Hanna, eu também “vi a expectativa em seu rosto, vi seus olhos tatearem meu rosto enquanto eu me aproximava, vi seus olhos procurando, perguntando, aparentando insegurança e vulnerabilidade, e vi seu rosto apagar. Quando cheguei, deu um sorriso amigável e cansado.[2]

Nós nos amamos fazia mais de trinta e três anos, e nos amamos por dois longos, frescos, deliciosos e turbulentos anos. Tínhamos dezessete anos, acho que éramos. Foi a minha primeira mulher e eu fui o seu primeiro homem. Mal sabíamos fazer sexo. Aprendemos juntos. Gozamos muita vez. Saímos do colégio crentes de um amor duradouro, quase eterno. Não sabíamos que meses depois nem nos falaríamos mais.

A faculdade nos separou. Os novos amigos também. Também como Brás e Virgília, “de dois grandes namorados, de duas paixões sem freios, nada mais havia ali, anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados. Ela tinha agora a beleza da velhice, um ar austero e maternal.”[3]

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Logo depois de um cumprimento bem burocrático e certo que estava eu que ela estava sozinha, forcei uma estada ali mesmo, puxando uma conversa bem trivial. Foi então que descobri que estava casada pela terceira vez e tinha dois filhos, cada um deles de um dos dois primeiros casamentos. Os meninos já estavam formados, um em engenharia e outro era um médico residente em cardiologia. O terceiro marido era um comerciante, acho que dono de um supermercado, não lembro mais bem. Contei-lhe também da minha vida.

Ficamos muito tempo conversando. A cada palavra lembrávamos, em silêncio – sem revelar-nos – dos velhos tempos. Como havíamos sido felizes e nem nos davámos conta de que o tempo passaria e ficaríamos assim: velhos!

Pensei, como Berg também pensou ao ver Hanna morta, que “é assim que deve acontecer em casais velhos: para ela, o homem jovem fica preservado no velho e, para ele, a beleza e o encanto da mulher jovem na velha. E a saudade tornou-se tão forte que começou a doer.[4] Lembramos, por exemplo, dos filmes de Fellini, Scola, Godard, Truffaut, Sica, Glauber… Dos livros, fitas cassetes, tantas coisas que lembramos às escondidas a cada palavra pronunciada.

Ela continuava sem beber. Ela nunca gostou de beber, ao contrário de mim. Só tínhamos pais. Ficamos ambos órfãos de mãe. E eu pela primeira vez naquela festa chata, eu fiquei triste pela mãe, a mulher que eu desejei tê-la como minha sogra e avó de meus filhos.

Em certo momento um bêbado, ou uma bêbada, não lembro bem, estragou tudo com uma brincadeira infame. Algo assim: “Relembrando os velhos tempos, hein?!” Essa intervenção infame e desagradável – e que mostrara que a bêbada ou o bêbado, não sei bem, não havia mudada em nada – selaria o fim do nosso reencontro. E ela se foi embora e eu voltei para a minha mesa, para me juntar a Marcelo, Bruna, Roberto e Paulo. Eles perceberam a minha visível tristeza em revê-la.

Eu já não mais prestava a atenção em absolutamente nada do que conversávamos, nem mesmo depois que mais três mesas foram juntadas à nossa e mais gente achegou-se. Não ouvia mais nada, ocupado que estava dela.  Pois tínhamos sido tão felizes. E sentiram, como Tanaka e Fräulein, de Mário, com aquela “coisa tristonha e desagradável que de portugueses herdamos: a saudade.”[5] E já era noite quando a casa ficou vazia, aquela casa previsível e feia, por isso mesmo. Completamente vazia.

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E, então, lembrei de uma carta de amor que Freud escreveu para Martha: “Vamos nos reencontrar, sozinhos em seu pequeno quarto tão simpático, minha menina vai estar sentada na poltrona … e falaremos do tempo em que nem o alternar-se do dia e da noite, nem a chegada de estranhos, nem a distância, nem as preocupações hão de nos separar.”[6]

Rômulo de Andrade Moreira – Procurador de Justiça no Ministério Público do Estado da Bahia e Professor de Direito Processual Penal na Faculdade de Direito da Universidade Salvador – UNIFACS

[1] “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis.

[2] “O Leitor”, Bernhard Schlink.

[3] “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis.

[4] “O Leitor”, Bernhard Schlink.

[5] “Amar, Verbo Intransitivo” (Mário de Andrade).

[6] RICCI, Giancarlo, “As Cidades de Freud” Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 57.

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1 comentário

  1. Delicado e verdadeiro para nós, passados dos 50 /60. Tão fortes e grandes paixões, tanta vida pela frente. Termos feito o possível do que queríamos é termos vencido.

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