A tempo e horas, crônica do milho e seu sabugo, por Rui Daher

E no domingo, sete de abril, nome de rua ali tão pertinho, por que não teve a coragem sugerida por Rosa? Confesso: medo. Soldados armados, amados ou não

Já pedindo vênia a outro Ivan, o ótimo escritor e ‘cumpadi’, o Ângelo, Ivan Lessa (1935-2012) foi para mim a melhor pena da crônica brasileira dos últimos tempos.

Dizia ele que mais importante do que escrever o texto era o “caderninho de notas”. O resto viria fácil. Sim, nele, cronistas registram percepções do cotidiano e depois as relatam.

Embora pobre na exposição, insisto: em minhas andanças brasileiras o caderninho recolhe muito para contar, nem sempre com a relevância enunciada pelos “Filhos do Capitão”, a quem pretendo dedicar uma série, já que dos “Sobrinhos do Capitão” restarão apenas boas lembranças.

Relativamente bem cuidados e agora restaurados à base de altos custos, tensões na cadeira, caretas várias diante das perguntas do dentista se está doendo, sei que, a tempo e horas, já posso roer espigas de milho e chupar o suco dos sabugos, o que me foi impossível durante certo tempo. Gosto. Sempre que o faço, odor e sabor me levam aos campos onde há quase 50 anos caminho. Chegam Rosa e “Grande Sertão: Veredas”.

Estranharam o termo acima, colocado em negrito e itálico? É da paixão que tenho pela língua portuguesa e por quem bem sabe usá-la. O caderninho o retirou do jornal “Portugal em Foco”, gratuitamente distribuído em um restaurante que frequento. Não é lindo? Por exemplo, a tempo e horas o Brasil se meteu numa enrascada.

Nesta noite, enquanto roo meu “mio”, ao lado de uma cachacinha de alambique mineiro, confundem-se o lastimável estágio que hoje vive o país e uma linda frase de João Guimarães Rosa (1908-1967): “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

É o que tento ter. Amiga virtual reclama de quem não esteve na Avenida Paulista no domingo para pedir #LulaLivre. Acrescenta que somos ativistas de esquerda apenas nas redes sociais e não nas ruas.

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Dou-lhe razão. Eu, por exemplo, chegando aos 74, antes e depois do impeachment de Dilma Rousseff, sempre estive lá. Igual à ditadura pós-golpe civil e militar de 1964, quando jovem estive a quebrar vidraças do Citibank na esquina mais famosa de São Paulo. ‘Alguma coisa acontecia no meu coração quando cruzava a Ipiranga e a avenida São João’.

E no domingo, sete de abril, nome de rua ali tão pertinho, por que não teve a coragem sugerida por Rosa?

Confesso: medo. Soldados armados, amados ou não, podem estar perdidos com armas nas mãos, que encaro. São humanos concretos, posso percebê-los. Opositores de amarelo, também. Enxergo-os e me junto ao bando vermelho com bordões e jargões de igualdade e justiça social.

Medo? Sim. De zumbis que saem não sei de onde, alarmantes assombrações, invisíveis para qualquer olhar mais civilizado e culto, desconhecedores da História, cegos em seus ódios, preconceitos e violências.

Medo? Sim. De quem não se arrepende de ter elegido presidente um homem que há 27 anos comete despautérios vários e, em pouco mais de três meses, paralisa o País com tuítes infantis, escolha anedótica de ministros, visitas desastradas a países estrangeiros, junto com família boquirrota e sem respostas para a grave crise que impede a economia de crescer e o povo trabalhar pela sua renda.

Medo? Sim. De rentistas que, em economia destroçada, artificializam a Bolsa de Valores a 100 mil pontos e fazem de conta que tudo irá melhorar … no ano que vem.

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Medo? Sim. De que outros imbecis possam querer que o “Hamas se exploda”.

Medo. Muito medo. É o que tenho marcado em meu caderninho de notas, saudoso Ivan Lessa.

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