Ah Leila, se você estivesse aqui, por Danilo Nunes

Leila, você está aqui! Está em cada mulher e em cada obra de arte que combate o fascismo. Você está em cada pessoa desse país que acredita e luta por liberdade.

LEILA DINIS FILMANDO EM PARATY ARTISTA DE CINEMA, TEATRO E TV (AGORA NO RAMO DA MODA) FOTO: EVANDRO TEIXEIRA DATA: 15/07/1969

Ah Leila, se você estivesse aqui

por Danilo Nunes

“São as águas de março fechando o verão…” uma frase de autoria do maestro Antônio Carlos Jobim que ficou marcada na memória de todo o povo brasileiro. As águas de março abrindo caminho para que o outono se apresente, assim como o choro de Deméter ao descobrir que sua bela filha Perséfone havia sido raptada por Hades, o senhor do submundo na mitologia grega.

O mês de março onde se dá a transição do verão para o outono, da abundância para o armazenamento traz o sol iluminando toda a terra. Em tantas culturas podemos identificar o outono como uma preparação para o novo que chegará. Também um mês que na história da arte brasileira tem um significado único, pois veio ao mundo Leila Roque Diniz ou simplesmente Leila Diniz.

A mulher e atriz que revolucionaria e romperia com os padrões conservadores, estremecendo as estruturas do patriarcado no Brasil, nasceu em 25 de março de 1945 e estaria completando seus 76 anos nesta semana, não fosse por um trágico acidente aéreo que lhe roubou a vida em 14 de junho de 1972, deixando ao Brasil a herança de uma mulher que se tornou símbolo de liberdade para mulheres de todas as gerações.

Não fez de sua vida um cotidiano apático e sem graça, mas sempre gerou polêmica sendo criticada pelo conservadorismo e até pelas próprias feministas da década de 60, justificando a crítica ao dizerem que a atriz estava à mercê das vontades dos homens quando em entrevista proferiu a frase: “Transo de manhã, de tarde e de noite.”

Em todo momento Leila estava ligada a alguma polêmica, não por questão de marketing e/ou business, mas pelo seu próprio jeito de ser e levar a vida, estando sempre à frente de seu tempo. A atriz que viveu uma época de ditadura e repressão era movida por suas próprias vontades, seja falando palavrões em entrevistas, seja pelos trajes que insistia em usar ou pela forma com que se referia aos relacionamentos monogâmicos e poligâmicos que experimentava.

Assim como hoje um presidente tenta calar a imprensa, os produtores de conteúdo e as comunicações, na época também se utilizaram do mesmo processo, gerando um decreto de censura e o batizando de Decreto Leila Diniz. O decreto foi embasado numa entrevista que a atriz concedeu ao Pasquim onde disse: “ Você pode muito bem amar uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo.”

Será que em breve teremos decretos com o nome de cada pessoa que chamar o presidente de genocida, mesmo sendo um genocida?

Ah Leila, se você estivesse aqui. Ah Leila, se hoje você morasse no Rio de Janeiro, estaria tendo que conviver pelas ruas com o maior esquema de milícia já visto onde não se sabe mais quem rouba ou quem mata. Muito menos a quem recorrer. A Leila, se você estivesse aqui.

Se o Brasil fosse o lugar que você (ainda) escolhesse para viver Leila, teria que enfrentar as consequências das chamadas famílias tradicionais e suas evangelizações dentro das bancadas parlamentares do Estado. Ah Leila, se você estivesse aqui você seria assediada e estuprada por algum homem “de bem”, rico, pai de família ou jogador de futebol e ainda seria acusada de crime de insinuação, levando a culpa e sendo apedrejada pela população “de bem”. Se você estivesse aqui Leila, talvez fosse vítima de uma política de cancelamento social por transar com quem e/ou quantas pessoas você escolhesse transar. Ah Leila se você estivesse aqui seria acusada de crime por sua nudez e ainda diriam que você é um péssimo exemplo para as nossas crianças. Seus espetáculos e entrevistas seriam um problema e suas roupas também.

Leila, se você estivesse aqui estaria vendo o Brasil nas mãos de um, aliás, de vários genocidas que se apoderaram do Estado e que arquitetam a todo custo um novo golpe contra um povo que já sofreu e continua a sofrer com todas as opressões possíveis. Um grupo que pretende acabar com a nossa “democracia” ainda jovem e em construção. Um grupo que assassinou a mulher negra e periférica que está estampada hoje em cada bandeira e coração que luta incansavelmente para sobreviver. Um grupo que odeia e mata mulheres, travestis, negras e gente da periferia.

Leila, você está aqui! Está em cada mulher e em cada obra de arte que combate o fascismo. Você está em cada pessoa desse país que acredita e luta por liberdade.

Leila você esteve aqui e sua presença se faz eterna nesse mundo porque precisamos de você, assim como de Marielle. Não queremos mais bandeiras estampadas com rostos que se tornaram símbolos, mas queremos as pessoas vivas construindo um novo Brasil.

Danilo Nunes é músico, ator, historiador e pesquisador de Cultura Popular Brasileira e Latino-americana.

Instagram: @danilonunes013

Facebook: @danilonunesbr

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora