Ah!, Se Fôssemos Cubistas, por Maíra Vasconcelos

Buenos Aires, início da primavera, 2014.

Tem dia que escrever é assim: enquanto o mundo está a discutir todo o seu desfazer, o escrevedor se acolhe numa cadeira qualquer, ergue ao alto sua mão bem grande e com força aparta o mundo dele mesmo. Vivo apartada do mundo no elaborar de cada palavra. Talvez porque não goste de mentir, e tenha a ambígua mania, cruel e salvadora, da verdade. E dizendo verdades não se fabrica sociabilidade, fabricam-se escritos num recinto reservado e afastado do exterior estranhamente mentiroso. O mundo mente para enganar, a escrita mente para brincar com a verdade. Não tenho solução para esta nova equação. A falsa aparência mundana é a razão da minha escrita e da minha verdade. Sou crua e desvairada quando me dou a qualquer escrito. Gosto do berro do desnudo. E se não me entrego às palavras, não tenho lugar no mundo, não consigo fingir que sei mentir. Não sei. Meu corpo fica deslocado, minha cara retorcida e sou um espanto no meio da sala de estar. Fui sempre exigida pela verdade do espelho, Ah!, do espelho quebrado, de um espelho gastado desenraizado, grande moldurado em madeira, e oval, como o que caiu em cima de mim quando bem menina. Era pequena demais quando me desabou aos olhos a impressão inteirinha que eu tinha de mim mesma. Fiquei estática cheia de pedacinhos de vidro pregados na roupa, mas nenhum me cortou a pele nem mesmo de raspão. Porque encarar o espelho quebrado não faz mal, tudo não passa de uma verdadeira aventura de reflexos refletidos sistematicamente desordenados. Foi com audácia que retirei pequenos vidros triscados rasgados de cima do meu corpo. Como segurar uma rosa branca e desabrochá-la à força antes do tempo. Pétala por pétala. Hoje escrevo com o mesmo susto assombrado daquele dia. Minha blusa era branca e isso me confundia, mas eu via tudo também ali, jogado no chão, e cada pedacinho de vidro era um reflexo de mim mesma, nova e igual, aparecendo desconfigurada em diferentes pontos de vista, diante dos meus próprios olhos. Meu volume reduzido em pequenos cacos. Um cubismo feito gente, um Picasso amarrotado, uma decoração de pastilhas em luz. Assim foi que perdi meu espelho inteiro, há anos-anos, e vivo desde aquele tempo dos seus diversos esmigalhados reflexos. São espelhos bem pequenos, às vezes passo os dias a olhar e buscar-me entre pedaços. Para ver-me, simplesmente. E gosto mesmo de cada um no reflexo que ele é. Pois como seria manter um espelho inteiro a vida inteira, e achar que ele conta a verdade? Com um espelho inteiro, é-se apenas um inteiro mentiroso. Como o mundo! E até as casas poderiam ser mais bonitas, se cheias fossem de espelhos diversos, retorcidos lisos e mal benzidos, e sabiamente benzidos também. E ainda poder trocar de pele com tanto vidro! Sempre com cuidado e destreza, aviso. Mas não existe feiúra que não seja reparada depois que se aprende a ver refletido em cacos. As opções de si passam a ser tantas, e quantas são as perspectivas!, retratos alterados marcados com. Somos mesmo fragmentados, como tais quadros pintados ao avesso-e-errado, e ainda desconformes. Além do mais, se sabemos preservar cacos do íntimo espelho, eles podem ajudar a refazer a memória, a partir deles poder-se-á ver aquilo que já não está mais presente. Eis que temos, assim, outro quadro-retrato montado a partir daquilo que foi desfeito e revirado. Eu terei uma memória enorme! Mas então, por que tanto se persiste em não quebrar espelhos?, quando ser visto no quadrado de um só reflexo deixa toda imagem tão estruturada chata-conservada, e previsível. Ah! Tratarei de seguir a juntar meus cacos, mas agora já não encontro alguma peça, está solta neste escrito?, em qual fase do estilharçar eu parei?

 

Leia também:  Um Bolsonarista a favor da Quarentena!, por Janderson Lacerda

Apego de Museu

Museus: eu deveria evitá-los. Sobrecarregam meu dia. Não é um alívio de distração, senão um agregado. Sinto-me cheia, e não esvaziada. Mas não cheia daquilo que completa, cheia do que fica sobrando. Peças de museu penduram-se em mim. E depois não sei o que fazer com essas antiguidades inadequadas no meu presente. Isto aconteceu a última vez, de visita a Montevideo, no Museu dos Presidentes. O casaco de um presidente, todo manchado de sangue, este mesmo que ele usava no dia que o assassinaram, estava ali dependurado, e tenho cada detalhe daquela manchada relíquia histórica em minha mente. Acho que olhei demais. E o que acontece nesses espaços de história e arte, talvez seja isso, eu olho demais!, e derramo-me sem critério em cima de todos os objetos, desprendida em excesso do agora presente. Como me esqueço no tempo! Não respeito a distância que há entre a montagem de realidades daquilo que está exposto, e a minha realidade. Misturo-me, perdida de mim mesma, com seus fragmentos de um mundo anterior a. Sendo que um museu é a dignificação do passar dos tempos: existimos em diferentes épocas, e estamos separados.

Socialização Dúbia

Ao escrever O Diário de Barbará, tenho conhecido o que foi o auge da minha socialização, num passado recente. Às vezes, foi-me irritante mudar frequentemente o nome das pessoas que as conhecia – e que ainda as conheço! Para que sejam elas, enfim, personagens da minha novela.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome