Ainda é outono, por Maíra Vasconcelos

As folhas secas são tantas e contínuas cobrem a cidade inteira. Aquele outono terminaria, mais uma vez, sem nunca chegar a ser realmente apagado.

Ainda é outono, por Maíra Vasconcelos

Buenos Aires, maio-junho de 2019

Ainda é outono. As folhas secas são tantas e contínuas cobrem a cidade inteira. Aquele outono terminaria, mais uma vez, sem nunca chegar a ser realmente apagado. Como se o outono não tivesse tido fim, exatamente. Talvez, persista um acúmulo de outonos. São essas camadas do tempo, são muitas épocas outonais acumuladas, dizia aquele senhor sentado em sua cadeira-de-outono. Uma cadeira com as quatro pernas de madeira nuas como as árvores da cidade hoje, ainda que também dispostas a logo florescer. Ele dizia, com desenvoltura, gostar muito dessa cadeira vestida pelas estações. Mas talvez não seja confortável, senhor. Não se sabe com qual intenção uma cadeira se enche de flores e folhas e depois se esvazia de todas elas. Ele parecia pouco tocado pelas intempéries, ou apenas suficientemente vivido para não se abalar com as mudanças plantadas bem ali onde se sentara para ver a cidade.

Ainda é outono. As folhas secas cobrem a cidade inteira. Enquanto este senhor prossegue insistentemente sentado em sua cadeira-de-outono. Enquanto todas as folhas secas se dispõem como algo indizível e incontáveis não permitem definir precisamente tudo o que se vai, seca e morre. Mas o outono passará. Por mais que tantas árvores de folhas caducas se enfileirem tão seguras de si mesmas com seus galhos duros e frios. Mas estão sempre dispostas a ceder lugar ao porvir. Logo, essas mesmas árvores estarão cheias de folhas verdes. E todos os anos isso é bastante comprovável, certamente. Como bem sabe aquele senhor, com sua cadeira reflexo das estações, à espera para se cobrir toda de verde. E, de algum modo, tudo isso estava ali quando o vi. É como se o verde sussurrasse, fosse fantasma, como se lembrasse presença mesmo não estando. Ainda que o outono guarde tanta escassez e desprendimento, todas as estações buscam espaços na eterna forma de se fazer ver mesmo quando não estão. Talvez, este senhor da cadeira-de-outono frequente a minha concentração imaginativa justamente por isso, por seu olhar sábio de primavera.