Alto-falantes da paixão – Capítulo segundo, por Z Carota

por fim, irei à distribuidora de Jorge, lançar-me ao jornalismo investigativo que essa história merece.

Alto-falantes da paixão

por Z Carota

Capítulo segundo
Sedes de amor

– Muito bom dia, Taguatinga! Olha o abacaxi de Marataízes! Olha a maçã de Buenos Aires, olha a pera da…

e o bom mascate fica em silêncio, por esquecimento ou dúvida sobre a origem da pera, mas, profissional, improvisa:

– Olha a pera da Ilha da Paixão!

recusando-me a procurar no Atlas onde fica tal ilha, para não me desapontar com a eventual insensibilidade de geógrafos que não a tenham mapeado, apuro as oiças para os reclames que o bom mascate faz de outras delícias:

– Olha o docinho de leite de Minas e a cremosa pamonha do Goiás! Quem chegar agora tem 10% de desconto em tudo!

ao ouvir o chamado, dei um salto da cadeira com tais velocidade e altura, que se o Comitê Olímpico Internacional, um dia, instituir a prova de 100m rasos de galeio com obstáculos (para quem não domina o idioma mineirês, dar um galeio é o impulso pra um salto súbito), eu vou tirar retrato no pódio com a medalha de ouro no peito, cantando o Ovirundum tudo errado, chorando bacias, fazendo coraçãozinho com as mãos e dizendo “Supere, Usain Bolt!”.

só que, desta vez, o frenesi não se deu, como de hábito, para garantir minha cota semanal de pamonhas, e sim para tentar testemunhar uma nova mensagem, via alto-falante do caminhão, do distinto damo que, na semana passada, se valeu de tal e criativo expediente para convidar a cavalheira Antônia, que mora ou trabalha no prédio em que resido, para ir a um forró que, ele garantiu, seria “top”.

entre vestir a farda de ir à rua (camiseta que o boi Odilon mascou qual chiclé-balão fosse, a bermuda xadrez frouxa e chinelos), chamar e esperar o elevador, descer pelo mesmo e chegar à rua, levei, se tanto, 10 minutos.
tomei meu lugar na fila, cumprimentei a Dona Leonor, do 705, que estava à minha frente, com a qual bati cordial papinho, como se nós, em mútuo segredo, não fôssemos adversários na luta pela pamonha nossa de cada semana, e aguardei minha vez de ter com o bom mascate Alvair para fazer o meu rancho.
pamonhas pedidas, pamonhas embaladas e entregues, pamonhas pagas, assuntei:

– o distinto (cultivo modos e falares fidalgos, de Belle Époque, vosmicês me dão licença? grato), por acaso, viu aquele senhor que, semana passada, lhe contratou os serviços de alto-falante para fins afetivos pessoais?
– hahahaha! vi não, freguês. boa semana pra você. próximo! – me despachou.

eu já voltava, confesso, macambúzio para casa, quando, de repente, o estofador Djalma, cujo estabelecimento libera a vaga ao caminhão de Alvair, e que também testemunhara o inusitado trelelê que enterneceu a todos, me chamou:

– eu vi!
– grande Djalma! mas ele veio, então? como não ouvi mensagem, achei que não.
– veio, veio, sim. chegou até antes de Alvair, e ela também veio.
– o quê? Antônia veio?! céus! e eu perdi isso… – reagi, entre perplexo e lamurioso.
– ela tava voltando ali do Girassol (a venda aqui do logradouro), ele chamou, ela veio.
– e? e? deixe de mistério, batuta! – exigi.
– ele chamou ela pra tomar uma guaraná ali na distribuidora de Jorge.
– alto lá, Djalma. me diz: foi ele quem falou “uma guaraná” – e fiz o sinal de aspas com os dedos –, ou isso é coisa sua?
– oxi! foi ele. eu falo é um guaraná, não é assim o certo, me diz tu, que é jornalista?
– é relativo, Djalma, é muito relativo. obrigado, e tchau.

duas coisas: se Antônia não amigar mais esse caboco, estou disposto a pensar em mudar a minha orientação sexual, porque estamos combinados que um homem que convida uma pessoa para tomar “uma guaraná” é capaz de feitos de amor impensáveis por esquadras inteiras de cupidos?
por fim, irei à distribuidora de Jorge, lançar-me ao jornalismo investigativo que essa história merece. mas nada de vestir farda de ir à rua, afinal, na impossibilidade de se conseguir fraque, cartola e polainas, “uma guaraná” exige ao menos traje esporte fino.

Continua amanhã.

Z Carota é jornalista e escritor, autor de “dropz” (Editora Penalux) e “a beleza que existe” (Páginas Editora)
Facebook: https://www.facebook.com/marcelo.carota.92/
Instagram: @zecarota
Twitter: @zcarota1

Leia o primeiro capítulo:

Alto-falantes da paixão, por Zê Carota

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