As manchetes e a realidade, por Izaías Almada

O brasileiro, de modo geral, ignora sua própria história, sua formação, econômica, política e cultural. 

As manchetes e a realidade

por Izaías Almada

A confusão é geral. Desgoverno, fake news, combate desorientado à pandemia, oposição sem saber o que fazer. Judiciário e Legislativo atônitos. Partidos políticos dando cabeçadas. O país entrou em terreno minado. 

Se fizermos um levantamento das manchetes e matérias dos últimos dois meses, quer na imprensa corporativa ou mesmo nos blogues progressistas vamos encontrar um caudal de manchetes, chamadas, entrevistas, opiniões sobre o mal que provoca ao país o cidadão Jair Messias e seus apaniguados.

No entanto, ele continua no governo e diariamente debocha da nação.

Algumas das manchetes mais antigas – e me desculpem a ironia – até já foram esquecidas pelas sinceras e profundas “convicções democráticas” da maioria da população brasileira. Ou, deixando a ironia entre aspas de lado, que fique bem claro, que as notícias foram esquecidas pela profunda ignorância que o cidadão brasileiro tem de viver e praticar a política.

Por exemplo: quem matou Marielle? 

Investigações fajutas ou algumas mais sérias indicaram o caminho das pedras para os seus mandantes, um deles, pelo menos o que se intui, morto recentemente no interior da Bahia. E daí? Qual o resultado prático disso para a democracia brasileira? 

O brasileiro, de modo geral, ignora sua própria história, sua formação, econômica, política e cultural. 

Uns pela falta de oportunidades de estudarem e encontrar trabalhos dignos e remunerados que lhes possibilitem ao menos a possibilidade de praticar o “self made man”, essa filosofia de algibeira em defesa de um sistema econômico que privilegia 1% da população mundial.

Outros, relativamente privilegiados, pois pertencem àquela classe que fica no meio de tudo, ou seja, medíocres mesmo, e que adoram ir para Miami e pedir a volta da ditadura militar.

Esses ignoram que, além das atrocidades cometidas contra milhares de cidadão brasileiros, o golpe de 1964 criou um vazio nas cabeças das novas gerações que vieram logo após aquilo a que se convencionou chamar nos quartéis, redações e adjacências “a vitória contra o comunismo que iria tomar conta do Brasil”. 

Outro exemplo: onde está o Queiroz? 

Alguém sabe? Alguém viu? Por que esse ínclito senhor jamais respondeu à Justiça? Escárnio, deboche, desrespeito total à Constituição e às leis penais.

Fiquemos então com algumas das mais recentes manchetes: 

 

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1 – “Presidente Jair comete crime de responsabilidade”. 

E daí? Com a presidente Dilma Rousseff a atitude foi a mesma e rapidamente veio a acusação e o pedido de impeachment, concedido – aliás – numa das mais vergonhosas e patéticas sessões do congresso brasileiro, quando a maioria dos deputados federais excretou a razão pela qual apoiavam a punição da presidente. 

2 – “STJ aponta fortes indícios de crimes e organização criminosa chefiada por Flávio Bolsonaro”.

Verdade? Mas isso já não é sabido há mais de um ano? O Ministério Público não se pronuncia, o Congresso, o Superior Tribunal Federal? E a Polícia Federal, o Ministério da Justiça, cujo ministro anda sumido? A pandemia que nos assola não é só a do Covid-19, mas é também a da covardia e da falta de vergonha na cara.

3 – “STF autoriza inquérito para investigar ato golpista endossado por Bolsonaro”.

Até parece que a nossa justiça funciona, não é verdade? Inquérito para investigar, quá, quá, quá… Quanto tempo irá demorar o tal inquérito? Até a próxima eleição presidencial? Alguém em 2016 investigou o ato golpista endossado por Temer?

O descaramento é total por uma razão muito simples: manda quem tem poder e quem tem poder é o capital e não o trabalho, embora muitos ainda alimentem a ilusão de que o povo unido jamais será vencido. Qual povo, o povo brasileiro?

4 – “PT entra na briga pelo impeachment de Bolsonaro”.

Um pouquinho atrasado… É a impressão que tenho. O Partido dos Trabalhadores já deveria ter “entrado na briga” há muito tempo, impedindo que o ex-presidente Lula fosse preso em São Bernardo e passasse um ano e meio numa solitária da Polícia Federal em Curitiba, sendo propositalmente impedido de candidatar-se nas presidenciais de 2018. Um golpe de estado com ares de “respeito às instituições democráticas”. 

Um golpe contra Dilma e outro contra Lula em menos de dois anos. Democracia? Onde?

5 – “PDT anuncia pedido de impeachment de Bolsonaro

Mais um pedido na mesa do presidente da Camara de Deputados. Já são dezessete ao todo… E nada. Até quando assistiremos a essa ópera bufa?

E de manchete em manchete, de notícia em notícia, de fake news em fake news, lá vamos nós ladeira abaixo, abaixando a cabeça para não sermos atingidos pelo fogo cruzado entre o Covid-19 e o governo (sic) que foi resgatado dos escombros de 1964.

Pois como se vê há um vácuo, uma enorme distância, entre as manchetes e a realidade brasileira.

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4 comentários

  1. O golpevjá está dado. Só os partidos de “centro” e esquerda não perceberam. Quando o “chefe da casa civil”, qual cardeal camerlengo no Vaticano quando o Papa morre ou adoece, assume de fato a presidência, enquanto as instituições e partidos assistem, incluindo imprensa corporativa e “virtual” e participam gostosamente da “suruba de loucuras” da familícia e as “forças” armadas assobiam para o lado … o golpe está dado. As instituições estão reféns da covardia e do formalismo.

  2. Concordo em gênero, número e grau, caro Manoel Castro. E não vai ser nada fácil reverter esse quadro. O brasileiro tem sangue de barata, vamos falar a verdade.

  3. Sergio Moro pede demissão enquanto Bolsonaro escancara o medo de que alguma investigação possa, de fato, chegar até os três zeros e nele mesmo. A imprensona hoje vive de manchetes chamativas e pouca densidade, o que acaba não tendo repercussão nos dias seguintes. Todo dia uma manchete escandalosa, mas sem a profundidade necessaria da analise. E nos estamos entre os milicianos e os milicos. Que pode nos acontecer de pior… O narcotrafico tomar conta de tudo publicamente também ?

  4. O espetáculo dado pelo atual governo, prezada Maria Luísa, é a prova de que nenhum dos homens e mulheres que o compõe estão capacitados para os seus respectivos cargos. O Brasil vive um dos problemas mais sérios da sua história republicana e não está sabendo como sair do atoleiro.

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