As pedaladas da justiça, por Fábio de Oliveira Ribeiro

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Quando tinha uns 4 anos de idade eu ganhei um velocípede dos meus pais. Ele tinha o assento de madeira, estrutura de metal e o pedal na roda dianteira. Eu gostava muito dele.

Com aquele triciclo eu atingia velocidades imaginárias que pareciam insuperáveis. Especialmente quando minha mãe ou uma das minhas irmãs me levava para brincar no posto de saúde próximo da minha casa. Morávamos então na cidade de Eldorado-SP.

Próximo a um dos cantos do prédio térreo havia uma imensa árvores. A imensidão dela, contudo, provavelmente se devia ao fato de eu ser então muito pequeno. Não era uma árvore frutífera. Este é o único detalhe que consigo lembrar. Os meninos maiores subiam nela. Eu não conseguia fazer isto porque o tronco era muito grosso e os primeiros galhos não estavam ao meu alcance.

Eu apreciava tanto daquele local que sonhava com ele. No sonho eu estava dando voltas no posto de saúde em grande velocidade. Então alguém muito grande e feio interrompe a brincadeira. Ele toma de mim o velocípede e sobe na árvore carregando o objeto.

Em segurança meu adversário zomba de mim. Quando protesto e exijo a devolução do meu velocípede ele me diz que eu devo subir na árvore para recuperá-lo. Eu tento subir e não consigo. Irritado, pego meu arco e disparo várias flechas no malandro. Ele  sangra mas não me devolve o velocípede. As flechas acabam e eu pego minha lança comprida para estocá-lo. Meu adversário grita, chora, lamenta, mas não desce da árvore nem me devolve o velocípede.

Neste momento aparece um homem velho, barbudo e bonachão. Eu lhe peço ajuda e exponho meu caso. Mas ele dá razão ao meu adversário. Diz-me que é muito mais feio atirar flechas e dar estocadas com uma lança em alguém do que, por brincadeira, subir numa árvore levando um velocípede.

Então algo acontece. O velocípede aparece na mão do bom velho e ele me entrega o objeto depois de de mar um belo puxão de orelha. Meu adversário desce da árvore dizendo que estava com medo de mim. Orelha ardendo, saio em disparada com meu triciclo.

Com pequenas variações tive este mesmo sonho várias vezes. O significado dele, contudo, ainda me parece bastante intrigante. A vítima de uma injustiça não deveria ser punida. O puxão de orelhas, porém, não pode ser considerado uma punição equivalente ao ato de atirar ferir alguém com flechadas e estocadas de lança. Que sentido poderia ter a expressão “exijo a devolução do meu velocípede” se algum tempo depois o objeto ficaria apodrecendo e enferrujando no quintal porque eu ganhei uma bicicletinha nova?

A vida não é uma estimulante sucessão de coisas. Nem uma monótona repetição de pesadelos. Todavia, a lembrança de um objeto e de um sonho pode se transformar numa coleção de palavras. Apenas os sentidos que elas adquirem ou não é que tem alguma importância.   

 

3 comentários

  1. Minha leitura

    A questão central desse sonho é o sentido de justiça (humana? divina?) representado pelo Homem Velho.

    A justiça foi feita: você recebeu seu velocípede de volta, mas foi punido porque usou de vingança. Ou seja: fez justiça com as próprias mãos contra seu adversário e não confiou na verdadeira justiça (dos homens? de Deus?), que, afinal, prevaleceu. Ambos erraram, ambos foram punidos fisicamente

    Numa cena espetacular do filme Cruzada (Kingdom of Heaven, 2005), Balian, chefe cristão, negocia a rendição de Jerusalém com o vencedor muçulmano e lhe pergunta: “Quanto vale Jerusalém?” “Não vale nada. Mas vale tudo”, responde Saladino. Jerusalém é o seu velocípede. Não vale nada, mas vale tudo.

  2. Tive esse triciclo, é o

    Tive esse triciclo, é o mesmo, o meu também era vermelho. Tinha 5 anos e rodava veloz no pátio de casa. Mas ele quebrou com o filho de uma faxineira e acabou.

  3. Com o Moro aconteceu a mesma

    Com o Moro aconteceu a mesma coisa. Deram um puxão de orelhas (se tanto) e devolveram o velocípede para ele. Mas não é sonho, é realidade, ou talvez pesadelo

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