As ruínas de um jardim que nunca aconteceu, se as flores sempre estiveram pisadas, por Maíra Vasconcelos

Depois, dois ou três textos expressam aqui no jornal o que não mais irá ser visto até o próximo inverno.

As ruínas de um jardim que nunca aconteceu, se as flores sempre estiveram pisadas, por Maíra Vasconcelos

*leitura da a-crónica aqui: 110303_006

Esses dias, quando terminava de ler o jornal, também ia embora o inverno. Enquanto há meses falo das vozes na escrita, ou alguma coisa próxima a se inventar um espaço de articulação entre fantasia e realidade. E me perguntara, qual formato darei para esses textos no jornal? Ainda sem voz definida, também o formato que nunca existiu. Cada texto como uma tentativa de se afirmar: “assim escreverei no jornal”. Mas depois tudo se dissolve no próximo texto. E vai embora e acabou. Quando há um suposto elo, uma aparente sequência entre os textos, cedo ou tarde, tudo irá se desencarrilhar. Perder a forma que nunca existiu, mas tinha vontade de. De se fazer para depois ruir, para apenas representar as ruínas de um jardim que nunca aconteceu, se as flores sempre estiveram pisadas. Lembram?

O que acontece aqui é uma montagem muito bem fingida, a montagem de um texto e acabou. Como o teatro que se desarma a cada apresentação, fecha as cortinas e depois quando volta já é outro apresentar-se. O corpo muda, a voz se altera, o ator é em cena o tempo perfeito da arte em vida. E vai embora e acabou. Para depois reviver e se refazer em novas apropriações do espaço, respirações, passos, sendo esse corpo-e-palco que nunca se repetem. Nenhum passo é igual ao outro. Nenhum teatro permite a repetição, a não ser que a repetição seja o próprio ato teatral. 

Depois, dois ou três textos expressam aqui no jornal o que não mais irá ser visto até o próximo inverno. Esses dias, quando terminava de ler o jornal, também ia embora o inverno. E vai embora e acabou. E assim vou rumo a terminar cada texto como se o próximo não fosse existir. Sabendo da sua existência, mas sem poder evitar a ruína. Escrever a suspensão indefinidamente, como se não pudesse dizer aos leitores, até logo. A relação da literatura é sempre de desvantagem e vantagem com determinado tempo. Qual tempo? 

 

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