Ascenção e queda da civilização high-tech, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ascender e cair, ascender e cair. Na antiguidade, os homens ficavam embasbacados com esse trágico fado dos empreendimentos humanos.

Ascenção e queda da civilização high-tech

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Quem inventou os navios, criou as condições que possibilitaram a invenção da democracia ateniense. Não por acaso, esse regime político atinge seu esplendor entre a vitória na Batalha de Salamina (480 aC) e a derrota na Batalha de Siracusa (413 aC).

E agora nós navegamos em águas turbulentas. Quem inventou a internet criou as condições de possibilidade para o surgimento do “capitalismo de vigilância”, sistema econômico-político que aufere lucro produzindo efeitos distintos em diferentes países. No Ocidente, ele enriquece as Big Techs (Apple, Amazon, Facebook, Google, Tesla e Windows) enquanto é utilizado para estraçalhar regimes democráticos. Na Rússia e na China o “capitalismo de vigilância” está reforçando regimes políticos autoritários.

Nós, seres humanos, somos orgulhosos de nossas invenções: navios, democracia, internet, “capitalismo de vigilância”. Mas nós também somos cegados pela nossa ambição natural. O que nós podemos realmente fazer além de lamentar a maldição de testemunhar e registrar a ruína das nossas civilizações? Nós sempre lutamos e perdemos.

Ascender e cair, ascender e cair. Na antiguidade, os homens ficavam embasbacados com esse trágico fado dos empreendimentos humanos. Eles criaram mitos para encapsular esse conhecimento de difícil compreensão. Nós, homens modernos orgulhosos de nossas novas invenções, desprezamos os mitos. Mas não deixamos de ser vítimas deles.

Agora chegou a nossa vez. A democracia ateniense podia escolher não realizar a trágica expedição a Siracusa? As democracias ocidentais podem agora escolher não apoiar militarmente o regime nazista ucraniano que foi criado pelos EUA? Na beira do abismo, o desejo de voar é sempre mais irresistível.

Sejamos humanos orgulhosos uma vez mais. Nossa civilização tecnológica ascendeu, agora deve cair. E nós devemos abraçar isso sem temor. O que mais nós podemos fazer? Nessa guerra aqueles que tem mais não perderão menos. E eles também perderão suas vidas, sem dúvida.

Os cadáveres flutuantes dos soldados atenienses que foram mortos em Siracusa choram eternamente porque ficaram insepultos. Eles são escutados pelos mitos esquecidos . Mas ninguém escutará os nossos lamentos depois que as redes mundiais de computadores forem destruídas por causa da guerra da Ucrânia.

Nas trirremes atenienses, os tambores controlavam a cadência e a sincronia dos remadores. Completamente alienados do que acontecia durante a batalha naval, eles continuavam remando até afundarem navios adversários ou serem afundados.  As empresas de comunicação europeias e norte-americanas já estão sendo sincronizadas pelos tambores de guerra tocados pela Casa Branca. Mas ninguém está prestando atenção a um detalhe essencial. 

A Guerra do Peloponeso afetou diretamente os soldados envolvidos e indiretamente as economias das cidades em conflito. Ao colapso militar e econômico ateniense seguiu-se o fim amargo da democracia e o início da decadência cultural de Atenas. Não existe entre nós uma só economia nacional que não dependa, em maior ou menor grau, do funcionamento da internet. A destruição da rede mundial de computadores durante a Guerra da Ucrânia afetará de maneira negativa até mesmo os países que forem militarmente poupados. 

Banqueiros, investidores, industriais, donos de empresas transporte e de cadeias de lojas, nacionais e multinacionais, que dependem da internet seguem cuidando apenas de seus próprios interesses. Eles agem como se não fossem apenas remadores numa imensa trirreme prestes a ser afundada pelo conflito entre norte-americanos e russos. Sincronizados pela mídia pró-conflito, os donos do capital só acordarão quando o barco frágil em que remam for abalroado.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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