Bola pro mato que o jogo é de campeonato, por Marquinho Carvalho

Rondinelli ganha de Abel pelo alto e marca o gol da vitória do Flamengo. AGÊNCIA ESTADO

Rondinelli ganha de Abel pelo alto e marca o gol da vitória do Flamengo. Crédito: AGÊNCIA ESTADO

Bola pro mato que o jogo é de campeonato, por Marquinho Carvalho

A frase título deste artigo é uma expressão popular proveniente do futebol. Não fiz nenhuma pesquisa sobre a sua origem, porém quem cresceu à beira de campo de futebol de terra no interior de Goiás no início dos anos 70 entende perfeitamente o termo. Eram os denominados “campos  de várzea”. O objetivo era dar um chutão o mais longe possível, como, por exemplo, para o mato ao lado do campinho. A dificuldade para resgatar a bola era uma forma do time que vencia gastar o tempo. A famosa “cera”.

A expressão justifica também dar um “chutão” na bola para fora do campo de jogo de qualquer maneira diante de uma situação de perigo. Porém, como diz a frase atribuída ao inesquecível Vicente Matheus, folclórico presidente do Corinthians, “é uma faca de dois legumes”. Afinal, livrar-se da bola demonstra falta de competência no trato com a pelota.

Como bem lembrou meu amigo Hamilton Amorim, “essa temática aí do ‘bola pro mato que o jogo é de campeonato’ acho que merece uma interrogação. Não no título, mas no decorrer da narrativa. Que é coisa de time grosso ou de time que não dá conta de botar a bola no chão e sair jogando. Infelizmente, essa máxima está em pleno vigor nos tempos atuais, principalmente, no futebol brasileiro”.

Essa compreensão do meu parceiro traduz de maneira enfática o discurso contundente do grande Mauro Cezar Pereira, excelente comentarista da ESPN, e agora também no seu próprio canal. Mauro é um crítico severo dessa prática constante em nosso futebol. Ele ressalta que a maioria absoluta dos times abrem mão da posse de bola e limitam-se a chutões e lançamentos longos sem muitas perspectivas que resultem em lances de gol. Neste link https://www.youtube.com/watch?v=Ku0f3d37JJE, numa das suas postagens em seu canal no YouTube, ele analisa com profundidade o tema apresentando, utilizando, como exemplo, o espantoso número de 109 chutões da equipe do Palmeiras na primeira partida das semifinais da Libertadores contra o Boca Juniors, na Argentina.

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Dentro dessa perspectiva, este artigo começou a surgir depois de uma navegação aleatória no YouTube, em que me deparei com o vídeo do histórico gol do zagueiro Rondinelli para o Flamengo contra o meu Vasco na partida final do segundo turno do Campeonato Carioca de 1978, que acabou se tornando a final daquele campeonato. Porém a convicção para efetivar a sua escrita surgiu quando entrei no site do meu ídolo José Trajano – www.ultrajano.com.br –, que recomendou o artigo “O Gol que libertou a geração de ouro do Flamengo”, escrito por Breiller Pires, publicado no El País – https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/03/deportes/1543856852_008879.html.

Aquele jogo histórico era decisivo para o campeonato em razão do fato de que o Flamengo havia vencido o primeiro turno e, caso vencesse o segundo, se consagraria campeão. O Vasco jogava pelo empate, que lhe daria o título do segundo turno e provocaria a grande decisão entre os dois campeões dos respectivos turnos. Mas eis que a postura covarde do Vasco, dirigido por Zagalo, de jogar pelo empate acabou resultando na sua derrota.

E quando ela surge naquela partida histórica? Justamente quando o grande lateral-esquerdo Marco Antônio (o mesmo que foi muito jovem para a Copa de 70 como titular para o México e, “estranhamente”, perdeu a posição para Everaldo, gerando muitas histórias) decidiu, aos 41 minutos do segundo tempo, colocar em prática a famosa expressão: “bola pro mato que o jogo é de campeonato”. O ainda garoto Júnior, hoje consagrado ex-jogador e comentarista da SportTV, fez o levantamento para a área e o lateral vascaíno, que poderia ter recuado a bola para o grande goleiro Emerson Leão, preferiu meter a bola para a linha de fundo. Lembrando que, naquela época, o goleiro podia pegar a bola recuada com as mãos, o que hoje geraria uma falta dentro da área.

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Na sequência, Zico cobrou rapidamente o escanteio, o zagueiro Rondinelli veio por trás, de surpresa, e cabeceou com estilo e força quase no ângulo da meta defendida por Leão. Resultado: Flamengo Campeão Carioca de 1978, num título que abriu caminho para uma geração supertalentosa do time da Gávea, comandada por Zico, Adílio, Júnior e tantos outros craques de bola.

Então, foi bacana escrever sobre o tema para poder também homenagear essa belíssima geração de craques do Flamengo, que, certamente, colocou aquele fantástico time entre as três maiores equipes do Brasil que vi atuar. E olha que posso afirmar isso com convicção porque, como vascaíno, sofri muito com aquele time. 

A homenagem também é, ainda, para meu saudoso pai, João Luiz de Carvalho, conhecido como Chinês, motivado por uma suposta semelhança com Chinesinho, ótimo meia-esquerda da Seleção Brasileira e do Internacional, Palmeiras, Modena, Juventus, entre outros, que jogou nas décadas de 50 e 60.

O fato é que, quando assisti o vídeo e vi o Marco Antônio colocando a bola para a linha de fundo para “aliviar o perigo” https://www.youtube.com/watch?v=xZI3yotmnyM  me veio, com toda clareza possível, a memória de meu pai esculhambando, de maneira enfática, a jogada do lateral. Papai parecia saber que, ali, sairia o gol do título do Flamengo.

Papai e eu éramos admiradores do talento de Marco Antônio, porém, ele não perdoou aquele lance covarde que resultaria no gol do título do Flamengo.

Ele sempre foi adepto do futebol arte. Odiava chutão. Gostava do futebol jogado com estilo, traduzido pela seleção de 82, dirigida por Telê Santana, que não conquistou a Copa, mas que nos encantou de maneira visceral.

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“Bola pro mato que o jogo é de campeonato” é uma máxima que faz todo sentido para o futebol de várzea que, tem tese, significa disposição e voluntarismo. No futebol profissional, fazendo uma alusão à música “Comida”, dos Titãs: “…A gente não quer só garra. A gente quer garra, diversão e arte”.

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1 comentário

  1. O BRASIL DE MUITO FÁCIL EXPLICAÇÃO

    De um lado Telê Santana. ‘Arquiteto de Sonhos’. Do outro, novamente o ‘Senhor das Retrancas’, Zagallo. Não é uma síntese do nosso país? De um lado vencer, mesmo perdendo. Do outro, o que ‘fazem vencer’ para justificar a derrota contínua. 

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