Brasil, o fim. Por Rui Daher

Acontece que, embora todos cabisbaixos diante da pandemia e de suas repercussões na economia e em nossas vidas pessoais e familiares, ainda vejo na agropecuária o segmento mais favorável diante do desastre.

Brasil, o fim. Por Rui Daher

(preâmbulo para o GGN)

Tentem passar o que estamos passando, pérolas negras e brancas.

Chegaram a pensar nisso em suas juventude e finitude? Creio que não. Ainda assim, independente de posições políticas divergentes, é bom pensar que ainda estamos numa democracia, e que dela nunca mais deveríamos abrir mão. Mesmo quando distraídos, não nos demos conta de que estávamos sendo invadidos por um vírus letal e um verme despreparado.

Acontece que, embora todos cabisbaixos diante da pandemia e de suas repercussões na economia e em nossas vidas pessoais e familiares, ainda vejo na agropecuária o segmento mais favorável diante do desastre. Pelo menos, neste ano, talvez em alguns seguintes.

Aonde se irá comer sem que vocês, caboclos, campesinos, caipiras, sertanejos e tabaréus, façam brotar da terra os alimentos que comporão nossas mesas, barraquinhas, fast-trucks, carrocinhas, açougues, restaurantes de beiras de estradas, rodízios, alimentos a quilo, chiques bares e casas de repasto, se vocês e nós, fornecedores de insumos nutricionais e fitossanitários não tóxicos, não existíssemos?

Vá lá que não podemos bancar viagens internacionais a nossos clientes, promover convenções e festanças grandiosas. Afinal, não somos multinacionais e nossos produtos não têm preços dolarizados.

Por que, então, os adeptos do convencionalismo não nos entendem? Resistem e até olham com desdém para as nossas tecnologias orgânicas, organominerais e biológicas? Teríamos alimentos mais saudáveis e contribuiríamos para a preservação do meio ambiente.

Temem nos testar, verificar efetividade, pagar muito menos, reduzir os custos por hectare. Depois o que dirão diante da massa vendedora e do poder de divulgação dos fabricantes de agroquímicos e tóxicos?

Costume, tradição, preguiça, burrice, sei lá. Mas e se for apenas enquanto os grãos permanecerem no lado de cima da gangorra? Quem esperava a Covid-19, simultânea a um mundo, disfarçadamente, já preparando, talvez em outros moldes, a Terceira Guerra Mundial. Por enquanto comercial, mas logo acionando arsenais e populações. Leiam como começaram as duas anteriores.

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(publicado originalmente em CartaCapital)

O primeiro sinal do novo coronavírus veio da China, em 31 de dezembro de 2019. Durante o mês de janeiro deste ano, o país informava que a Covid-19 se espalhara de Wuhan, na província de Hubei, para outras localidades chinesas.

A doença começou a atravessar mares e fronteiras. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o etíope Tedros Adhanom Gebreyesus, pediu alerta e, em 11 de março, decretou tratar-se de uma pandemia.

Resultado no planeta até 25 de maio (OMS): 5,3 milhões de casos confirmados, 342 mil óbitos.

Hoje em dia, ouço cientistas, virologistas e infectologistas dizerem ter desconfiado da catástrofe, ainda quando os primeiros casos passaram a se expandir para outros países.

Nós, povo e leigos brasileiros, da mesma forma, desconfiamos do desastre que seria sua chegada a um país de tamanha desigualdade social, sem aparelhos sanitários e de saúde apropriados, habitado por aglomerados urbanos, e autoridades políticas obtusas e despreparadas.

Perguntarão os leitores, “mas que raios quer este colunista se já sabemos disso tudo, que corrói nossas vidas? Mais um relato? Chega”!

Dou-lhes razão, mas tenho pouca certeza se repararam que, um dia após o anúncio do novo coronavírus, na China, o Brasil passou a ter que se defender, também, de um prolífero verme.

Resultado na Federação de Corporações: 378 mil casos confirmados, 24 mil mortes.

Não foi a isso, porém, que venho aqui. Estou sentado no salão paroquial de uma igreja, virtualmente cercado de caboclos, caipiras, campesinos, sertanejos, tabaréus, e pequenos comerciantes e industriais que plantam ou servem à agropecuária.

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Trago a bola, pela ponta-esquerda, e cruzo da linha-de-fundo, na cabeça de meus leitores, para que eles afundem a rede. Feito isso, chuto o pau da barraca. Para valer!

Desde que a crise na saúde iniciou, era certo que ela acertaria, em cheio, uma economia que já vinha sendo destruída pelos fatores desemprego, queda de renda, terceirizações para a pobreza, confrontos políticos e ameaças à democracia.

Há mais de dois meses o governo federal (só poderia vir de lá), pois estados e municípios, diminuídas suas arrecadações, beiravam a bancarrota, prometeu abrir as burras. Como é justo, primeiro para os mais vulneráveis. Começaram pelos R$ 600,00, ainda assim metendo os pés pelas mãos.

Ao mesmo tempo, ministros da área econômica e presidentes de bancos públicos e privados entenderam necessário ajudar empresas micro, pequenas e médias, atravancadas por mazelas várias.

Passados dois meses, crise comendo solta, em 19 de maio, o presidente da República sancionou a lei que cria o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe).

Não é grande dinheiro não, a ser emprestado a subservientes produtivos. Deveria atender empresas que, em 2019, tiveram faturamento menor do que R$ 4,8 milhões.

Trago isso para o setor antes e dentro da porteira das fazendas.

Se o Brasil tem perto de seis mil municípios, e vocês são leitores que percorrem o país, não será difícil lembrar que em cada cidade tem, pelo menos, uma lojinha que vende desde gaiolas para passarinhos até botas, passando por insumos agropecuários.

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Se, mais do que isso, chegar às principais cidades dos grandes polos de produção agrícola, encontrarão para mais de dez estabelecimentos assim. Agreguem a elas pequenas indústrias de fertilizantes em todas suas variedades. Não há estatísticas, mas eu chutaria uma média de cinco portas assim abertas, inclusive, aguentando um período de menor movimento (sazonalidade).

Piores aqueles que importam ou comercializam produtos vindos do exterior. Sofreram uma estilingada de quase 40% no câmbio.

Pois bem, em matéria publicada pelo “Valor” (26/05), fica-se sabendo que governo e bancos ainda discutem “divisão de riscos e ampliação de público-alvo da linha de crédito”. Mais: não sabem se isso precisa passar pelo Congresso Nacional ou se basta uma regulamentação do Ministério da Economia, embora o texto aprovado diga que o risco de inadimplência caberá 85% ao Tesouro Nacional.

Os bancos temem arcar com os 15% restantes. Em sua cupidez, pedem taxas mais altas de juros (seria Selic mais 1,25% ao ano) e prazos menores para que os financiamentos sejam quitados (seriam 36 meses).

Pelo Pronampe, as microempresas e as de pequeno porte poderiam tomar o equivalente a 30% de sua receita bruta de 2019.

Prometem uma reunião para esta semana. Agora sim, ferrou ou palavra mais forte. Até lá quantas dessas empresas sobreviverão e poderão quitar compromissos com seus fornecedores?

Quem mais canalha aí? Creio que aqueles há décadas privilegiados com juros e taxas estratosféricos.

Inté.

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