Cabeças Cortadas, por Rui Daher

Cabeças Cortadas, por Rui Daher

Todos os anos, no final de novembro, penso em me matar. Sei que o carrinho de bombeiros de pau que ganhava de meu pai no Natal não chegará. Continuo precisando dele para apagar os incêndios do planeta. Neste ano de 2017, tudo me pareceu mais grave.

Hoje, cedinho, estava no folclórico e elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo. Muitos de meus melhores amigos moram lá, como lá está o consultório de meu psiquiatra. Fui visita-lo.

Estaria precisando aumentar as doses de antidepressivo? Diminuir o álcool? Pedir que ele me contasse uma fábula de Hans Christian Andersen e eu adormecer em seu sofá?

“Não, Rui, você não é Ubaldo, o paranoico, personagem de Henfil, mas está quase lá”, falou o Dr. Millan.

Saí de lá com o trivial: receitas, sorrisos, recibo, e fui tomar café com Betinho, grande amigo antigo, talvez quem mais conheça a minha vida pregressa e, como canoro Nelson Gonçalves, sempre me faça estar de regresso.

Penso que foram os acontecimentos da manhã que me fizeram, neste começo de noite, estar folhando o romance “A Insustentável Leveza do Ser” (Nova Fronteira, 1983, 27ª edição), do escritor checo, Milan Kundera. Sinonímia, é isso?

Creio que muitos leitores e leitoras conheçam ou tenham lido esse livro de reflexão sobre a paixão, mas não só.

Logo no início, percebo sublinhado por meus 38 anos, na época, o seguinte trecho: “Se a Revolução Francesa devesse se repetir eternamente, a historiografia francesa se mostraria menos orgulhosa de Robespierre. Mas, como ela trata de uma coisa que não voltará, os anos sangrentos não são mais que palavras, teorias, discussões – são mais leves que uma pluma, já não provocam medo (…) como condenar o que é efêmero?”

Ah é, Milan? Efêmero? De 1789 até hoje, quando “O incorruptível Robespierre” cortava cabeças, quantas mais foram cortadas, e continuam, em nome de ideais semelhantes aos da Revolução Francesa?

Aposto que o peso dos corpos de revolucionários ou resistentes na França, Polônia, Auschwitz, África, Américas do Sul e Central, Palestina, Faixa de Gaza, Granada, Cuba, Iraque, Líbia, Afeganistão, Manchúria, em nome de seus mesmos ideais, ficaram mais leves sem suas cabeças.

Hoje em dia, no Brasil, eu tornaria mais leves as cabeças de Temer, Gilmar Mendes, Doriana Júnior, e quem mais eu fosse pornográfico de citar.

Seres que não se mostrariam insustentáveis em sua leveza, sem as cabeças.

Quem quiser ler a seriedade agrária que publiquei ontem em CartaCapital, mas não reproduzo aqui, consultem o site. Lá encontrarão, entre os colunistas, um velho de cabelos brancos desalinhados, camisa desalinhada e puída. Sou eu.

https://www.cartacapital.com.br/economia/um-pouco-sobre-economia-circular

https://www.youtube.com/watch?v=se2vS2Dg9Is

 

8 Comentários

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Rui Daher

- 2017-12-01 22:41:27

Maria Luisa,

É Joseph Conrad, o horror, o horror. Abraços

Rui Daher

- 2017-12-01 22:39:35

Zé Sérgio,

De Correntina, escreverei na próxima semana em CartaCapital. Abraços.

Rui Daher

- 2017-12-01 22:37:19

Marcos,

nada como ser eadicalmente explícito e não ficar em firulas como eu; Concordo. Abraços.

Rui Daher

- 2017-12-01 22:35:05

Cristiane,

Terminada uma semana dura de trabalho e frustrações políticas, você me oferece 9 presentes, que acabei de ouvir durante mais de uma hora. Fiquei feliz. Disto, vem a energia benéfica e, também, de você já saber que tudo o que escrevo, mesmo quando sério, tem uma pitada de galhofa. Grande abraço. 

Cristiane N. Vieira

- 2017-11-30 02:32:29

Bêbadavida
Eu não ia comentar porque sei o quanto irrita quando estamos indignados, com toda a razão, e vêm os amigos de Jó botar panos quentes. A ira, que era o pecado capital do Bobbio e às vezes é também o meu, deve seguir seu curso de evasão com o mínimo de prejuízo para quem a sente e recebe, até ser transmutada em energia benéfica de autotransformação, quando a alquimia se realiza e a consciência entende, se perdoa, aprende melhores caminhos e evita as armadilhas do mundo. [video:https://m.youtube.com/watch?v=FCEzSdQIU7M] [video:https://m.youtube.com/watch?v=lDYG5bgkzDM] [video:https://m.youtube.com/watch?v=rgMWyJxIIJo] [video:https://m.youtube.com/watch?v=wnTUdw3nIgU] [video:https://m.youtube.com/watch?v=CP7Pxchikss] [video:https://m.youtube.com/watch?v=cUSXdx05Yeo] [video:https://m.youtube.com/watch?v=axdhqnpHkHs] [video:https://m.youtube.com/watch?v=eEXwfAzRR1I] [video:https://m.youtube.com/watch?v=x2F9JUCZ78k] SP, 30/11/2017 - 00:32

Marcos K

- 2017-11-29 14:37:44

Sempre disse que esse país

Sempre disse que esse país terá solução quando for instalada uma guilhotina na praça dos Três Poderes e ela começar a funcionar a todo vapor....

ze sergio

- 2017-11-29 14:07:15

cabeças...

Caro sr. Rui, a geração de 64 faz mesmo um favor à Nação indo para o cemitério. Abre caminho para que o cabresto seja um pouco mais solto. Extinto, se o Povo Brasileiro enfim perceber seu poder. Mas seus filhos e netos, moradores de Miami, Paris ou NY bradarão: 'Fizeram tanto pelo país. Despretenciosamente e de forma AntiCapitalista, é claro'. Como disseram os Militares é preciso que o bolo cresça para alimentar a todos. E cresceu. Casa Grande virou Mansão. Capitanias Hereditárias foram ampliadas. Elites se multiplicaram. Mas jurando sua eterna pobreza. Tudo não passa de Palestras e Serviços de Assessoria. Sabemos. Me incomoda estes apelos pelo fim, por morte ou suicidio, que leio em muitos intelecuais e articulistas desta geração, que se iludiram na esquerdopatia, como o Reitor da UFSC. Me parece covardia e arrogância. Vendo a catástrofe iminente  construída e formada nesta latrina/2017, tentam uma fuga fácil a enfrentar a realidade e constatar o equívoco. Se iludiram na farsa. Mas de forma livre e consentida. O que por exemplo não aceitam em eleições obrigatórias. Por favor não queira a morte. Use da sua vida para ensinar sobre erros, tropeços e ilusões de uma geração que não acreditou em si, mas em Messianismos e DomSebastianismos. E é claro das suas realidades que ajudou a construir, na Agropecuária, como em Correntina/BA onde força nacional tão extraordinária sepultou antigos coronelismos, que sobreviveram alimentados por erros desta geração de 64. Mas que trazem novos e promissores desafios. Mas do que ninguém, o sr. sabe que é a Vida. E viva a Vida. abs.  

Maria Luisa

- 2017-11-29 09:36:11

Nada além, nada além de uma ilusão.

Ah, insustentavel leveza de ser... de viver? Até entendo a escolha da data, so de pensar em mais um natal e depois o depressivo réveillon, com todos de branco ou prateados, largos sorrisos, jogando serpentinas... Eu às vezes me pergunto se é Gardenal ou coisa mais pesada...  Mas ai começa-se outro ano, carnaval, congresso em foco, eleições, filhos, netos, amigos, e a gente vai vivendo... e entre noite e dia, noite e dia, a efemeridade de tudo vai nos deixando nostalgicos e ainda felizes por sermos capazes de apreciar mais um pôr do sol.

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