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Carta a Mariana, por Rui Daher

Carta a Mariana, por Rui Daher

Mariana, Nana, Nanica, primeira filha, amada, vai pra quase um ano e meio que não nos vemos, com beijos e abraços. Mais do que isso vivo de suas excelências de posições. Em caráter, valentia, profissionalismo e política. O mesmo que nós, pais, tentemos passar a você e seus dois irmãos, Júlia e Gabriel. Êxito total!

Sei de muitos na mesma situação. Deploro. Nem sei mais o que esperar de um país, o nosso, que nem mesmo soube praticar o lado bom do sistema econômico capitalista. Você e seu companheiro estão no berço do que sufoca vidas que olham para um horizonte e nada veem, os Estados Unidos. Menores que um Deus. Ele existiria?

Então, citando Caetano Veloso em “Cajuína”, a quem será que ‘Ele’ se destina? Uma vida paradisíaca pós-morte. Fuck!

Aqui, no Brasil, como aí nos EUA, terminaremos o ano calendário sob o fantasma da pandemia Covid-19, mas só? Privilegiados que somos?

Não!

Há décadas, fora de nosso estrato social, milhões passam pela morte sem defesa. Por fome, bala ou vício, como um dia se expressou Caetano Veloso, em “Sou louco por ti América”.

Diante de tanta miséria e ignorância endêmica, tenho mesmo vergonha da vida fácil que ainda levo.

Minha militância, quando expressa, levou a nada. Vou a Chico Buarque, em música-carta que escreveu para Augusto Boal.

“Aqui na terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock’n’roll”. Pior, também sertanejos e axés horríveis, fora de nossa maravilhosa cultura popular de raiz.

“Uns dias chove, noutros dias bate sol”. Até quando com um governo que desconhece a preservação ambiental?

“Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”. Isto, quando assim os brancos podiam se expressar sem estar negando justiça à causa negra. 

Deixo Chico e volto a meu passado de luta contra a ditadura militar, há mais de meio século. Foi mais fácil. Hoje em dia, eles se entranharam, aproveitando truques sob a lona do circo democrático, num ethos de ultradireita que domina grande parte da população brasileira.

Tá fácil não. São vários os fatores. Não caberiam em tamanho e espírito nesta carta, e muito menos em minha saudade.

Continuarei lutando. Com pouca fé.

Muitos beijos. Merry Christmas!

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