Causos de um país que se esvai em mel, por Rui Daher

por Rui Daher

“Alguém me disse que tu andas novamente” … Pensei que seguiriam “de novo amor, nova paixão, todo contente”. Foi não. Nem era o vozeirão de Nelson Gonçalves que me admoestava com melodia e palavras de Evaldo Gouveia e Jair Amorim. Mais uma vez era Darcy Ribeiro incorporado no preto velho Beniamino Lanza a direcionar minhas ações.

Estranharam o nome do preto velho? Por quê? Meu pai, embora filho de libanês e síria, não se chamava Fritz, homenagem de meus avós a um médico alemão que morava em São José do Rio Preto? Pois então.

O pai de Beniamino Lanza tinha voz potente, gostava de cantar óperas e de ouvir Beniamino Gigli e Mario Lanza. Dar esse nome ao filho foi homenagem supimpa. Certo é que ninguém perguntou ao moleque o que ele achou.

Mas a bronca de Darcy, o “tu andas novamente” veio a propósito de minha atual agressividade. Por exemplo, achou o título de meu último post no GGN, “Causos de um país que se esvai em fezes”, grosso e generalista. E o povo brasileiro e mestiço, mandou perguntar. Preferiria “Causos de um país que se esvai em mel”.

Enloucou, imaginei, desconfiando do porte da morena que encontrou lá no céu, lábios de mel, sorriso também.

Apesar de algumas refregas, na época em que Brizola disputava a esquerda com Lula, sempre tive dificuldade em polemizar com Darcy. Se me irritava, e eu elevava o tom da conversa, ele amenizava: “Rui, para, para, não se mexe, cale-se! Olha o corpo daquela mulata que ali vem”. Ríamos e, ainda em Maricá, no estado do Rio, me passava o chimarrão que Leonel ensinou o mineiro a gostar.

– Tá bom, Darcy, se achas que é pra ir de mel, vamos lá. Deixemos as fezes para eles misturarem no crème brûlée.

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– Não é por aí, fala o incorporado Beniamino. Não foi isso que ele quis dizer. Você só piora. Com essa idade, não tem juízo!

– Juízo. Juiz. Judiciário. Instância qual? TNC. Querem saber, vocês dois? Neste momento, com mel não sei escrever. Façam o texto vocês. Tô fora e levo a AK-47 bem longe, para não fuzilar o meloso Moro de ontem, aos berros, com a defesa legal de Lula. Não duvido sermos os maiores criadores de serpentes do planeta. O que esperamos para torna-las agronegócios? Façam acordo bilateral com Trump. Deixem-me assassino. Depois o Dr. Varella irá lá me entrevistar. Pode até dar filme.

Sei que Darcy e Beniamino pensaram por alguns dias e mel não saiu da nossa colmeia. O camicia nera, o beiçudo, o mordomo cadavérico, o chanceler capaz de fazer acordo bilateral com Birigui, o banqueiro inimigo do Batman que não cedeu o Robin para farras outras nas vielas de Gotham City, o prolífico Renan, o Cabral que descobriu Angra dos Reis, o Cunha, ah, este é demais: “vai querida, faça a feira na Tiffany’s”.

E aí Darcy, mel aonde? Preto velho, Beniamino Lanza, a lança vai no rabo de quem?

– Você não tem jeito, mesmo.

– Vou tentar melhorar. Vá lá, beijos, Beto Richa.   

 

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6 comentários

  1. causos…

    Caro sr. Rui, a elite brasileira não se enxerga. A elite brasileira são sempre os outros. A elite brasileira pode estudar no Colégio São Bento. Alguns podem, outros não. Mas isto é irrelevante para a elite brasileira. A elite brasileira pode ser amiga do Presidente da República. Pode inventar a Universidade de Brasilia. Logicamente mal remunerada frente ao grande desafio e trabalho impostos. A elite brasileira detesta o capital. Ela não precisa deste mal que assola a Humanidade. Se a elite brasilieira precisar viajar de 1.a classe, quem pagará será a UnB ou outro departamento estatal e governamental brasileiro. Se precisar ficar em hotel 5 estrelas, a mesma coisa. Restaurantes famosos e caríssimos, idem.  Viagens mil pelo Mundo? Isto é coisa de Elite. Fazemos isto pelo sacrificio de trabalhar pelo país. Mal remunerado é claro. Pago pela Unb, é claro. Ou outro departamento estatal ou governamental. Depois desta vida de sacrificios, pagos pela UnB é claro, ou Congresso Nacional ou outro Poder Público, pelo qual  exercemos alguma função ou mandato, uma merecida aposentadoria do setor público, mal remunerada entre 30 e 100 mil reais. Merecida, pelo sacrificio imposto pela nação, é claro. Tudo por uma vida acusando os maleficios impostos pela Elite Brasileira. Obrigado, Professor Darcy Ribeiro. Até hoje eu não tinha entendido quem era a elite nacional. Aprendi. 

    • O comentário seria mais esclarecedor se fosse mais esclarecido

       

      Ze Sergio (terça-feira, 13/12/2016 às 18:59),

      Não me parece bem esclarecida a sua definição de elite brasileira. Dizer que ela não gosta do capital é colocar o Paulo Skaf fora da nossa elite e há milhares de Paul Skaf no Brasil. Dizer que ela se restringe a quem recebe uma merecida aposentadoria do setor público mal remunerada entre 30 e 100 mil reais é reduzir essa elite a provavelmente menos de 100 mil pessoas. E é conhecer muito sobre esse grupo afirmar que ele não gosta de capital. Entre eles quem não gosta de capital deve ser uma minoria inexpressiva.

      Penso que a nossa elite é maior do que esse número e ela deve chegar a bem mais de um milhão. A nossa elite não se restringe ao setor público e para quem ganha acima de 30 mil antes dos impostos você vai ter até talvez cerca de dois milhões de brasileiros, seja como trabalhador seja como empresário, seja no setor público seja no setor privado.

      Enfim é preciso fazer uma revisão de seus conceitos.

      Clever Mendes de Oliveira

      BH, 14/12/2016

       

      • o….

        Caro Clever, você leu meu comentário mas não o compreendeu. Nossa elite pode ser Paulo Skaf. Quantos “Paulo Skaf” temos no país? Uma infima parte da nossa elite. Mas nossa verdadeira elite parasita o Poder e Orçamento Público em toda nossa história. Sua sobrevivência se deve a isto. Ela não pode se reconher. Seria seu fim e o fim do seu discurso. Não precisa ir longe, basta vermos os artigos de Delfim ou Belluzzo: Poder Judiciário, Altos cargos em municipios, estados, União, Poder Público que pode legislar sobre seus salários, Receita Federal, Tribunal de Contas, Universidades Públicas, Aluguéis para repartições públicas, Autarquias. Salários, aposentadorias, pensões nababescas. Consomem de 70 a 130% do orçamento público. São os que detém o Poder e o usam para o país não se mexer, nem contestar este poderio.  Não dá para abetre o elefante atirando no rato. Informe-se.

        • Aleguei exatamente que não havia compreendido o seu comentário

           

          Ze Sergio (quinta-feira, 15/12/2016 às 10:34),

          Gentileza sua responder ao meu comentário. Não faço da sua gentileza um salvo conduto para o que eu considero manifestações pouco esclarecidas. Você começa sua resposta dizendo que eu não compreendi o seu comentário. Nisso você tem razão e foi exatamente isso que eu também tinha dito no meu comentário para você. Se seu comentário fosse mais esclarecido ele seria mais esclarecedor e eu o teria compreendido.

          Você concorda comigo que na sua definição de elite o Paulo Skaf não estaria incluído e você reconhece que Paulo Skaf faz parte da elite. Há então até certa evolução no seu comentário. Evolução, entretanto, que deve ser pouco comemorada, pois você emenda dizendo que ele é uma ínfima parte da nossa elite. A questão da elite é o poder que ela desfruta e o Paulo Skaf tem mais poder que todo o restante do que você considera a parte maiúscula da elite, ou nas suas palavras: “a nossa verdadeira elite”.

          E você finaliza na sua crítica ao que você considera “a nossa verdadeira elite” culpando-a por consumir de “70 a 130% do orçamento público”. Essa é uma típica afirmação que eu chamo de pouco esclarecida. Matematicamente é impossível consumir 130% do orçamento público. Dentro da sua concepção do que seria a elite brasileira, seria mais razoável dizer que “a nossa verdadeira elite” consome de “7,0% a 13,0% do orçamento público”. Agora, incluindo além dos aposentados do setor público, os que estão na ativa ganhando de 30 a 100 mil reais e que seria a faixa que você parece entender como compondo a “nossa verdadeira elite” eu não saberia estimar qual é o percentual exato que ela consome do orçamento, mas não creio que esse percentual seja diferente no resto do mundo.

          E por fim a sua penúltima frase pareceu-me totalmente desvinculada da realidade brasileira. Diz você: “Não dá para abater o elefante atirando no rato”. Tudo bem que é só uma metáfora ou uma alegoria. Só que de uma parte ela faz mais lembrar o presidente das Filipinas Rodrigo Duterte que quer resolver tudo nas Filipinas na base do tiro. Há outras formas mais eficazes em combater ratos que apelando para tiros. E no Brasil não existe elefante.

          Clever Mendes de Oliveira

          BH, 15/12/2016

  2. Caro Rui só faltou, se posso

    Caro Rui só faltou, se posso pedir, a radiografia do sarau. Vimos um ministério de saber e alegria, sambando e cantando. E chorando! Com o Nassif, e a família, recebendo a todos com boa prosa e tocando. Acho que a caipirinha nos levou a um outro mundo.  De irrealidade. De bom, só espero o próximo, no final de 2017! 

  3. Pode ter certeza que o Brasil não se esvai

     

    Rui Daher,

    Muito bom.

    E já teria gostado muito se não soubesse da sua amizade com Darcy Ribeiro. Ele não foi qualquer um.

    Na campanha de 94, em que ele era vice de Leonel Brizola, eu ainda não votei em Lula. Sendo entrevistado pela Folha de S. Paulo, Darcy Ribeiro já sabendo derrotado, deixou a marca da irreverência dele ao dizer que era um luxo para a esquerda ter a disputa entre Lula e Fernando Henrique Cardoso.

    Fernando Henrique Cardoso possui alguns defeitos de personalidade e esses defeitos o ajudaram a criar toda a expectativa com a globalização. Aliás há uma expectativa marxista com a globalização e Fernando Henrique Cardoso é um estudioso de Marx. O defeito de personalidade dele que o fez colocar todas as balas na globalização foi, entretanto, o cosmopolitismo dele que eu diria nordestino no sentido de que Fernando Henrique Cardoso é um hímen complacente com as idéias que vêm do hemisfério norte.

    Quando eu menciono os defeitos de personalidade de Fernando Henrique Cardoso, eu lembro de uma história que eu tinha acompanhado na televisão no final da década de 70 ou início da década de 80, e que a memória me traíra, mas o pouco que eu lembrava era muito ruim com Fernando Henrique Cardoso. Eu tinha visto ele falar para o interlocutor: não vamos discutir sociologia porque ai eu ponho você de cabeça para baixo. A minha memória me traíra porque eu lembrava do interlocutor como sendo Fausto Wolf e só mais tarde em 2006, na Folha de S. Paulo de 05/04/2006, o Marcelo Coelho fez referência ao episódio detalhando que o interlocutor era Cláudio Lembo. A história está contada em detalhe no comentário que eu enviei quinta-feira, 21/04/2011 às 03:03 para junto do comentário de Anarquista Sério enviado quarta-feira, 20/04/2011 às 20:21, no post “FHC, o acadêmico que trocou as bolas, segundo Lembo” de quarta-feira, 20/04/2011 às 21:02, aqui no blog de Luis Nassif e contendo o artigo de Cláudio Lembo, “Palavras mal proferidas” publicado no site Terra. O post “FHC, o acadêmico que trocou as bolas, segundo Lembo” pode ser visto no seguinte endereço:

    http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/fhc-o-academico-que-trocou-as-bolas-segundo-lembo

    Enfim quando se constata que o a esquerda não consegue ter uma representação de 25% do Congresso Nacional (Tirando Katia Abreu e Armando Monteiro, a esquerda só teve 20 votos contra o Impeachment) e mesmo assim ficou 20 anos no poder se chega a conclusão que mais que um luxo, a disputa entre o PSDB antigo e o PT foi uma grande obra de engenharia política que conseguiu deixar a majoritária direita longe do cetro presidencial por muitos anos. E Fernando Henrique Cardoso de quem eu não gosto (Na verdade, não gosto das ideias dele, se se pode dizer que ele tenha ideias) é responsável por parte disso.

    Bem, eu queria também dizer que a PEC do Teto, hoje já podendo ser dada como a Emenda do Teto, não é nada disso que se diz sobre ela. Observe que o Orçamento de 2014 foi proposto em 2013 quando havia fortes sinais de recuperação da economia. Embora tenha sido elaborado antes de se saber qual fora o crescimento do PIB no segundo semestre de 2013, já havia analistas que estavam prevendo uma forte recuperação do PIB e que essa recuperação se engataria em 2014. Se se ler artigos de Chico Lopes vai se observar ele recomendando que o Banco Central ficasse mais atento ao crescimento e elevasse os juros para evitar um crescimento além da conta.

    Então o orçamento de 2014 foi proposto com um aumento de receita de cerca de 3% acima da receita de 2013. Como 2014 não houve crescimento, a Despesa de 2014 ficou acima do recomendado. Em 2015, a presidenta Dilma Rousseff fez corte de gastos, mas ainda assim o orçamento de 2015 foi feito antes da eleição de 2014, e só a partir de outubro de 2014 em diante com a forte queda dos preços das commodities é que a receita começou a cair.

    Então no orçamento de 2015, as despesas estavam em relação ao PIB como as de 2013, mas supondo que o PIB de 2015 se iniciasse 3% maior do que ele realmente se iniciava, pois em 2014 não se realizou o crescimento de 3% como esperado. Então as despesas de 2015 em relação ao PIB seriam iguais as despesas de 2013 em relação ao PIB se o PIB tivesse crescido 3% em 2014 e estivesse estagnado em 2015. Só que em 2015, o PIB caiu 4%.

    E mais. Se ao final de 2016 se constatasse que não houve variação do PIB trimestral relativamente ao PIB do trimestre imediatamente anterior durante todo ano de 2016, o PIB de 2016 teria sofrido uma queda de 4%. Isso porque se o PIB fosse anualizado diariamente, e supondo o PIB anualizado de 31/12/2014 igual a 100, então o PIB em 31/12/2015 teria sido de 92. Ou seja, a queda do PIB ao longo do ano de 2015 foi de 8%. No entanto, quando se compara um PIB que não variou e que foi o PIB de 2014 com o ponto médio do PIB de 2015 se constata que houve uma queda do PIB apenas 4%. Assim se sabe que se o PIB trimestral em 2016 ficar estagnado já está estabelecido uma queda de 4% do PIB em 2016.

    Como o orçamento de 2016, não conseguiu reduzir os gastos públicos, pode-se dizer que, em 2016, há uma despesa pública que em relação ao PIB se iguala a despesa pública de 2013 em relação ao PIB se tivesse havido crescimento do PIB de 3% (Crescimento previsto para 2014) mais 8% (Queda não prevista do PIB em 2015 e em 2016).

    Talvez se devesse considerar que houve algum corte de despesas em 2016 e que esse corte reduziria um pouco essa diferença de mais de 11% (1,03*1,08). É verdade, mas não se esqueça que o presidente às custas do golpe Michel Temer emitiu decretos zerando os restos a pagar e, portanto, aumentou muito os gastos públicos em 2016 e assim não fica longe da realidade dizer que os gastos públicos estão mais de 11 pontos percentuais acima do que se teve em 2013.

    Há ainda que considerar que até aqui tem aparecido queda no PIB trimestral ao longo do ano de 2016. No primeiro trimestre de 2016, até que houve crescimento, mas como foi muito forte a queda do PIB no último trimestre de 2015, o PIB apareceu em queda no primeiro trimestre de 2016. Então talvez a queda em 2016 acabe aproximando de cerca de 5%. E não se pode esquecer que em 2017 já está previsto que os gastos públicos podem crescer 7,2% e, portanto, podendo chegar a ser 0,5 pontos percentuais acima da inflação.

    Então há um espaço muito grande para o crescimento do PIB que em princípio deverá acontecer a passos de cágado em 2017, 2018, 2019, 2020 e 2021, para que as despesas em relação ao PIB cheguem na mesma situação que elas se encontravam em 2013. Só lá na frente então é que se poderá dizer que começará ocorrer restrição orçamentária em razão de do teto dos gastos. Há que se reconhecer, entretanto, que os gastos per capita vão está em patamar bem inferior aos de hoje.

    Na verdade, esta emenda é só para pegar o PT. Só o PT não tem condições de conseguir apoio para mudar a Constituição. A direita muda isso na hora que for do interesse dela mudar. Já o PT não tem força nem para impedir mudança constitucional.

    Então nos próximos cinco anos não será necessário que a direita tenha força suficiente para mudar a Constituição. Daqui a dez anos, entretanto,  ela vai poder mudar o teto via Lei Complementar que precisa de maioria absoluta o que provavelmente só o PT não vai conseguir.

    Além disso, os Estados vão poder aumentar a receita e aumentar as despesas, o que reduz ainda mais o alcance da Emenda.

    De certo modo, ela apenas reduz as chances de o governo central adotar políticas anti recessivas lá mais à frente caso elas sejam necessário. Durante os próximos três anos os gastos públicos federais serão proporcionalmente ao PIB muito maiores do que no período da presidenta Dilma Rousseff. Enfim, eis ai um teto que é mostrado apenas para inglês ver.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 14/12/2016

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