Conversas com minha mãe – Pão com cebola no café da manhã, por Daniel Gorte-Dalmoro

"Você pegou a fase já remediada, a gente já trabalhava, já ajudava em casa, dava pra comer cebola no café da manhã quase todo domingo".

Conversas com minha mãe – Pão com cebola no café da manhã

por Daniel Gorte-Dalmoro

Mãe enche a boca para falar de outro prato especial, ainda que fosse degustado mais vezes durante o ano, que não só no Natal: cebola frita na banha para o café da manhã de domingo, que se comia com pão. Cebola produzida no próprio terreno – geralmente o porco que fornecia a banha também. Ou então gemada. Tânia argumenta que não era tão raro assim:

“Você pegou a fase já remediada, a gente já trabalhava, já ajudava em casa, dava pra comer cebola no café da manhã quase todo domingo”.

E de domingo era quando minha avó preparava o macarrão: após abrir a massa, antes de cortá-la, estendia uma toalha sobre a cama, para deixar o macarrão secar, e só então cortar:

“É que se cortasse com ele úmido, grudava na faca e ficava uma paçoca, uma massa, e não um macarrão bonito”.

A cena me parece curiosa, até porque, se se tratava da casa que conheci, além da cozinha havia a copa: é certo que eram oito pessoas, mas precisava ser na cama? Minha mãe diz que sim: que a cama de casal era grande e cabia toda a massa produzida – isso quando minha avó fazia, porque depois ficou mais barata e ela pode começar a comprar o macarrão pronto.

Tenho curiosidade em saber o que comiam no dia a dia ainda mais quando penso que aqui em casa, temos cada um um hábito diferente para comer: meu pai comia o que aparecia, sem reclamar e sem desperdiçar, meu irmão gosta de preparar comidas sofisticadas, eu preparo quase só comidas básicas que duram a semana toda, e minha mãe não gosta de repetir o mesmo prato três dias seguidos – o que consegue concretizar ao saber fazer “reaproveitamentos” com pratos antigos que não raro acabam melhores que os originais.

“Arroz, feijão e ‘chachicho'”.

O tal chachicho é algo entre o salame e a linguiça, explica Tânia:

“Devia ser o que não dava para fazer salame”, complementa minha mãe.

Era o que havia de mais barato de carne, proteína animal. Era preparado com variações, como ao molho ou com batata.

Já o arroz posto à mesa muitas vezes era colhido pela minha própria avó: nas plantações próximas, as máquinas colheitadeiras não tinham tanta eficiência, e sobrava muito arroz, que os proprietários deixavam as pessoas irem colher manualmente depois.

Daniel Gorte-Dalmoro é escritor e funcionário público. Filósofo e Sociólogo formado pela Unicamp, Mestre em Filosofia pela PUC-SP (se debruçou sobre A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord), Psicanalista em formação. Autor, dentre outros, de Trezenhum. Humor sem graça. (Ibiporã 1011) e Linha de Produção/Linha de Descartes (Editora Urutau).

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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