corações flambados, por zê carota

imagine você também: pelo Facebook, Norma conheceu o Paul Evy, que, no RG, é Paulo Evandro, mas rebatizou-se à francesa desde que participou do reality culinário Chefs em Desfile

corações flambados

por zê carota

com essa epidemia de programas culinários, sinto calafrios só de imaginar como serão certas ceias natalinas país afora, preparadas por tipos que confundem status teleguiado com talento, e já me solidarizo com todas as pessoas que irão às ceias salivando por nacos de leitão à pururuca, dúzias de sanduichinhos de pão de queijo com pernil, saaras de farofas e everests de salpicões, mas voltarão para suas casas frustradas, além de famintas, claro.

imagine você também: pelo Facebook, Norma conheceu o Paul Evy, que, no RG, é Paulo Evandro, mas rebatizou-se à francesa desde que participou do reality culinário Chefs em Desfile, do qual foi eliminado após flambar um marreco – vivo, causando bafafás que lhe renderam catiripapos e processos.

no Messenger, começaram os flertes que, cadinho de tempo depois, culminaram no convite, feito por ele, para se conhecerem pessoalmente, “e por que não na ceia de natal? nossas famílias estão longe, ficaremos sozinhos nessa cidade, vou adorar cozinhar pra gente!“, Norma topou, dizendo “ulalá!” seguido de um emoji babando.

na noite da ceia, nos caprichos com o penteado e a maquiagem, quase náufraga nas dúvidas para a escolha do vestido e dos sapatos, Norma viu-se atrasada, donde achou por bem ligar e avisar, o que Paul Evy achou até bom: “sem problema, também apertado aqui com os preparativos, é bom que você já chega pra gente cear“.

alívio, arrumação, saída, chegada.
ao entrar, Paul Evy a guiou pelo braço até a sala de jantar, fez um meneio pomposo e boboca com o outro braço em direção à mesa, e disse:

– vamos comer?
– vamos! também adoro me servir direto das panelas – respondeu, já pegando o prato e saindo em direção à cozinha.
– não, não, ma cher! – interveio, sorrindo, e completou: – o prato já está à mesa. com você, meu Drunk Turkey de Natal, marinado em conhaque belga de maçã, com molho de ervas selvagens que batizei Amazônia Sauce, numa ilha de farofa de tâmaras reduzidas cercada por uma salada de begônias, hortênsias, rúcula, passas de maçã e cubinhos de queijo coalho de rinoceronte fêmea.
– que vergonha! achei que era um centro de mesa do Romero Britto. perdoa?
– claro…

tudo pose.
torta de climão para dois servida.
mal tocaram na comida, ficaram num silêncio de missa de sétimo dia de vigário, até que ela, depois de dar um tapinha na cabeça, exclamou:

– meu deus! esqueci que tinha uma obturação a fazer ainda hoje!
– tudo bem, também tenho que levar o gato pra passear.
– você tem gato?
– não, mas vou comprar um, depois vou levá-lo pra passear.

despediram-se, ela se foi.
no caminho de volta para casa, parou no Dogão do Elias, pediu, lambuzou-se e fartou-se com um X-Bagunça, bacon e queijo dobrados.
em casa, o Paulo Evandro fechou tudo e abriu o gás.
pela primeira – e última – vez, usara direito o fogão.

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