Crimes do Futuro? (II), por Izaías Almada

O futuro chegou com tal avidez que o vivemos no dia a dia sem perceber... E o passado? Bem, esse ficou para o Google, certo?

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Crimes do Futuro? (II)

por Izaías Almada

O futuro chegou com tal avidez que o vivemos no dia a dia sem perceber… E o passado? Bem, esse ficou para o Google, certo?

Podemos evitar a manipulação de nossas mentes? 

O bombardeio do consumismo através de campanhas milionárias de publicidade, os editoriais e manchetes dos jornais diários, os filmes e séries de televisão, os intermináveis anúncios que invadem a nossa leitura de sites e blogues são alguns dos elementos visíveis de uma disputa pelas nossas cabeças, os nossos sentimentos e os nossos bolsos.

A guerra fria, aquela perspectiva de fim de mundo (o Day after) que parecia ter terminado com o final do último milênio, voltou com nova roupagem e os mesmos beligerantes invadindo nossos smartfones, laptops, computadores caseiros e com uma terrível novidade: as notícias falsas.

Não que as falsas notícias não existissem, mas demoravam um pouquinho mais para fazerem algum mal ao convívio social. Hoje são criadas e espalhadas por todo o mundo em segundos e a revolução comportamental que isso cria ainda está por ser avaliada. 

E a quem interessa espalhar o maior número de notícias falsas? Quais são aqueles que mais delas se beneficiam?

As eleições de Trump nos EUA e de Jair Messias no Brasil são os exemplos mais consistentes em campanhas eleitorais majoritárias recentes. Como foi possível mudar o resultado eleitoral em apenas alguns poucos dias, tanto na matriz quanto na filial? Como foi possível eleger duas pessoas despreparadas não só para comandar os seus países, mas despreparadas para o convívio social minimamente civilizado?

Simples: as “fake news” inundaram as redes sociais através dos whatsapps e não só, fazendo o serviço sujo contra Hilary Clinton e Fernando Haddad.

No caso dos Estados Unidos, o documentário cinematográfico “Privacidade Hackeada” (The Great Hack), é um exemplo brilhante de como confundir as nossas mentes e até mudar decisões… Sobretudo em países cuja consciência política da maioria de seus cidadãos deixa a desejar, tanto na matriz quanto na filial. Procurem assisti-lo na Netflix.

Aqui ainda estamos na pré-história da cibernética. No entanto, se é possível mudar o resultado de uma eleição, o que impede que as “fake news” que contribuíram para tais mudanças sejam investigadas?

Na contracapa do livro já citado, FUTURE CRIMES (*), podemos ler: “Os avanços tecnológicos têm beneficiado nosso mundo de maneiras inimagináveis, mas há um lado sinistro: a tecnologia pode se voltar contra nós”. 

“Os hackers podem ativar babás eletrônicas para espionar as famílias, os ladrões estão analisando as redes sociais para planejar invasões de domicílio e os stalkers (perseguidores) estão explorando o GPS de smartfones para monitorar cada movimento de suas vítimas”.

“Todos sabemos que os criminosos de hoje podem roubar identidades, limpar contas bancárias online e apagar servidores de computador, mas isso é apenas o começo”.

O livro de Marc Goodman descreve dezenas de operações criminosas contra usuários de computadores, de empresas que falsamente criaram antivírus e softwares de segurança, desde 2006, e chegaram a faturar 500 milhões de dólares em poucos anos. 

Mas hackers não são necessariamente criminosos, pois podem muito bem ajudar a descobrir como agem as empresas e as instituições verdadeiramente criminosas na era da cibernética; ou detectar comportamentos incompatíveis e até criminosos de membros de governos democráticos ou não.

Glenn Greenwald é jornalista e pertence a uma já não tão nova geração de jornalistas investigativos. E hackers não são necessariamente criminosos, pois graças a muitos deles ficamos sabendo das armadilhas, das tramoias e dos crimes que se armam, sem quaisquer escrúpulos, nas salas e escritórios dos “defensores da moralidade pública, dos que lutam contra (sic) a corrupção”.

Não é por acaso que o ministro Gilmar Mendes concedeu uma liminar ao jornalista e nela considerou “corolário imediato da liberdade de expressão o direito de obter, produzir e divulgar fatos e notícias por quaisquer meios. O sigilo constitucional da fonte jornalística (art. 5º, inciso XIV, da Constituição Federal) impossibilita que o Estado utilize medidas coercitivas para constranger a atuação profissional e devassar a forma de recepção e transmissão daquilo que é trazido a conhecimento público”.

A cultura da Casa Grande & Senzala ainda está impregnada na alma brasileira. Graças a ela temos uma, permitam-me a expressão, elite perversa, sempre pronta a defender seus interesses particulares e não os interesses do Brasil e de seu povo, este – como os escravos das senzalas, sempre pronto a obedecer. Precisamos isto sim, de uma nova revolta de Palmares, mesmo que se inicie em smartfones e laptops, mas se complemente nas ruas.

A cultura desse admirável mundo novo inclui os hackers do bem.

Veja o trailer de “Privacidade hackeada” abaixo.

(*) “Future Crimes”, autor Marc Goodman, Editora HSM, Direitos reservados.

Leia a primeira parte de Crimes do Futuro? – Aqui

1 comentário

  1. Com o devido respeito, não vejo a situação de “fake news” e indução do pensamento ou roubo deste, como o autor prefere, como problemas do futuro. Este problema é permanente e nos acompanha, desde que fracos, decidimos viver em comunidade, tribo, família, que seja.
    Até pouco tempo atrás, chamava-se isto de fofoca, boato, calúnia ou mentira deslavada. Agora preferem o termo “fake news” anglicismo barato que ajuda a polir a superfície do que antes, conhecíamos tão bem. O futuro é roubar termos para ocultar sua verdade, já ensinava Orwell em 1984. Isto permite duplipensar: atribuído ao adversário é mentira, aplicado a nós mesmos é um boato “que ouvi dizerem”.
    Quanto a induzir, passamos pela doutrinação das famílias, das escolas, dos púlpitos, dos políticos profissionais, da imprensa, a internet é só a mais nova mídia. O conteúdo não difere significativamente das manipulações anteriores. Sua diferença principal é a intensidade com que somos expostos.
    Para isto que serviria a história: para compreendermos nosso passado e procurarmos melhorar para o futuro.
    Cometemos o erro de depositar nossas esperanças na tecnologia, no capital, no trabalho, mas não na reforma íntima e pessoal que devemos empreender.
    Este foi o crime.
    Roubar ao indivíduo o direito de ouvir seus silêncios, lidar com suas dores, refletir sobre seus atos. Sujeitar o indivíduo ao bombardeio contínuo e impiedoso de notícias, sem permitir que as possa digerir.
    Roubar a esperança de poder se tornar alguém e não uma mercadoria.
    Roubar seu tempo, seus espaços, sua privacidade.
    Roubar seu ócio.
    Roubar seus recursos e a natureza que os cerca, para produzir quinquilharias que não precisamos.
    Nossa geração desatou o nó da caixa de pandora. Agora é hora de purgar os pecados, ou será que também roubaram o arrependimento das nossas mentes e corações?

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