Crônica da noite em que não vi o saci, por Rui Daher

Penso: o Brasil hoje é governado por duas famílias, os Marinho e os Bolsonaro, fingindo brigarem. Cada uma organizou seus ilícitos exércitos para uma luta tribal.

Arte Iberoamérica Social

Crônica da noite em que não vi o saci, por Rui Daher

A noite do último dia do mês de outubro, do ano sem graça de 2019, estava calada em sua estrada calada e escura, embora em tantos anos, qualquer sítio, nunca percebi a noite completamente calada.

Em algumas horas, sabiás começarão a cantar desde as árvores que sobrevivem em meu bairro paulistano. Parece que os chilros dos machos, ouvidos no início da primavera, atraíram fêmeas para o acasalamento, e agora proliferam filhotes em ninhos.

Como terão sido seus gozos? Beijam-se?

Ornitólogo que não sou, mas amaria ser, ouço que mesmo ameaçado o Brasil continuará em gorjeios até que passem as trevas.

Acredito. E assim recorro a literatos, historiadores, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, arquitetos, economistas, sérios, que se dedicaram a coonestar a história difícil, controversa, por que não, mas real deste país, abençoado pelo colonialismo antigo ou o imperialismo moderno, talvez por eventual Deus, Jorge Benjor, sua negra Tereza, ou a torcida do Flamengo.

Sim, moramos num país tropical. Será isso a nos trazer tal letargia que permite sermos alienados, constantemente, de direitos que lutamos para conquistar, mas logo os devolvemos às elites mandatárias?

Somente nós ou em todo o centro e o sul da América? Sei lá. Há 50 anos, estudo essa dominação e ainda não consegui entendê-la. De tudo o que leio, tiro conclusões parciais, defeituosas, reversíveis. Consigo “pedacinhos de céu”, menos talentosos que os de Waldir Azevedo (1923-1980).

Sempre me acabam surgindo fantasmas de títeres, como Porfírio e Trujillo, que me desacoroçoam. Ou, sem demérito ao continente africano, tão sacrificado pelo imperialismo quanto nós latinos, nações em conflitos internos, gestões corruptas, longos períodos de ditadura, terras de ninguém, antes dominadas por interesses europeus, hoje chineses.

Esse o cenário que o clã bolsonarista trouxe. Penso: o Brasil hoje é governado por duas famílias, os Marinho e os Bolsonaro, fingindo brigarem. Cada uma organizou seus ilícitos exércitos para uma luta tribal.

Merecemos? Como África? Talvez, não. Pela nossa soberana história negra. Mas sim, pela dominação permitida às elites.

Serão nossas vanguardas de esquerda, na acepção leninista, voltadas a um desenvolvimento menos desigual, tão ineptas assim?

Atenção: reler a obra marxiana, como bem a denomina o professor José de Souza Martins, não é ser comunista, mas sim entender o capitalismo atual.

 

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