Crônica de uma segunda, por Roberto de Martin

Os patrões ainda discursam, as moscas ainda insistem, as unhas pintadas das garçonetes dormem exaustas, o moço procura no lixo algo que nunca perdeu, porque nunca teve, mas procura

Crônica de uma segunda

por Roberto de Martin

Não tem nada errado. É isso mesmo. As putas estão nas esquinas às 8 da manhã de segunda, as retroescavadeiras trabalham, carregando flamenguistas e botafoguenses tristes com o empate de domingo, ainda sonolentos. Pais divorciados trocam os filhos em silêncios disfarçados de parquinhos; melhor assim, pior assim.

Não tem nada de errado com isso, nem a chuva que cai nos raios do sol formados pelo vidro do carro, que corre, é assim mesmo, mas, porém, nada errado. A mãe e o filho esperando o sinal abrir, os mendigos grávidos pedindo esmolas com seus textos ensaiados de tanta dor, a melhor técnica teatral já não inventada, as padarias lotadas de moscas e de chefes vaidosos que discursam para seus empregados, que fingem ouvir atentamente a próxima tática de venda, enquanto observam a meleca na narina esquerda do senhor, impecavelmente mal vestido. Os bombeiros que cheiram o café antes de levarem às bocas, antes de mais um dia de descanso, depois de mais uma noite… as putas… os chefes… as horas… as aflições… as segundas…

Haveria algo de errado nisso se os medos noturnos continuassem com o brilho do dia? Não. Disfarçados, superados, escondidos, renovam os ânimos dos assalariados orgulhosos de terem pago mais 12% de juros ao banco, em troca da fuga de uma palavra difícil, inadimplência. Disseram na TV, esse braço deixado sem cabeça, mais batido que chão, que analogias forçadas, que metáforas que não deram certo, mais batidas que textos ruins. As redes, sociais, onde estamos, todos? Aqui. Sim. Estamos, todos estamos onde poderíamos estar, não fosse a falta de vontade de pensar dos que obedecem, sobre os que obedecem.

Nada de errado, tudo parado no sinal vermelho dos pedestres, nada, nada de errado nisso, a criança ri, pula, grita, verde! Antes de a luz trocar, adivinhando a outra cor, enquanto o carro acelera, crendo – ainda – já – ser domingo, e não para no semáforo de segunda-feira, deseducando o moleque, que invadiu a pista, sim, sem a mão da mãe, que olha a gota de chuva cortando os raios do sol e tenta tirar uma bela foto sem filtro para postar no instagram.

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Os patrões ainda discursam, as moscas ainda insistem, as unhas pintadas das garçonetes dormem exaustas, o moço procura no lixo algo que nunca perdeu, porque nunca teve, mas procura, enquanto os bombeiros, largando as xícaras, cruzando os raios de sol deformados pelo vidro do carro que foge, entram na pista vermelha de sangue e de semáforo, desrespeitando as regras de trânsito, para tentar salvar uma vida que respira com dificuldade, ainda respira, já ofega, ainda-já pede o colo do pai, que sentado na máquina de escavar retroativamente, acorda de um cochilo, lamentando aquele gol perdido pelo camisa 9 “que não merecia estar vestindo esse uniforme”. O filho, no chão, chora, sem lágrimas, o pai trabalha, embalado pela manhã de segunda, pela puta da esquina, cafés, carros, mãe sem filho, sem filtro, há exatos 49 segundos…

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