Da peleja do deputado da bancada da bala com os Racionais MC’s, por Rui Daher

No dia fatídico, assim que ele acabou sua alocução, liguei o celular na altura máxima. Alto-falante ligado

Racionais MC's
Da peleja do deputado da bancada da bala com os Racionais MC’s
Por Rui Daher

Raras são as vezes em que um sorriso foge de meu rosto. Quem me conhece, sabe. Não, porém, ultimamente.

Cabisbaixo não fico. Radicalizo. Sai o olhar meigo, que sempre fiz questão de dirigir aos outros, e entram os dentes cerrados e o rosto crispado. Acontece amiúde em embates ou mesmo quando cruzo com patrões que, até hoje, não entenderam as funções sociais do capitalismo, que os sei reconhecer em posturas e semblantes “impávidos, colossos”.

Fundamentos socialistas, nem pensar. Perdemos até mesmo diante de regentes insanos.

Piores ainda são os capachos desses patrões. Não sabem nada, mas ao invés de contrapô-los, repetem-nos como ‘Louro José’ verde-amarelos.

Não irei me alongar. Vou logo a um deles.

Há quase cinco anos, frequento um hotel no interior de São Paulo, onde sou recebido com gentileza e simpatia por todos os funcionários.

A rotina é clássica. Entre o fim da tarde e o início da noite, chego da fábrica, ou de visitas em campos verdejantes e do falar caboclo, arisco ou grato, mas sempre suave. Dependendo do horário, nem subo ao quarto. Somente com a mochila, eterna companheira, dirijo-me ao bar e à agradável área para fumantes, localizados ao lado do lobby.

O chope, vez outra um destilado, outra e vez um vinho para acompanhar o jantar, e telas para a pornográfica paixão pelo futebol. Dá-lhe Mengo e Santos. Tanto faz. Amo os dois.

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Certa noite, no ano passado, período pré-eleitoral, cenário e situação similares, eu e meu aparelho, entrei em polêmica com um capacho bolsonarista, piloto do avião de um rico, mas ignaro, patrão brasileiro. No recinto, um tertius tentava equilibrar a discussão.

De lá para cá, mas não mais acolá, vários encontros e nem mesmo um acenar de cabeça. Estava claro. Tínhamos nos tornado inimigos figadais.

Na quinta-feira passada, chegava eu de Piracicaba, três dias de evento na ESALQ, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, e segui a rotina.

Lá estava o desafeto. Sinistro, mumificado, fúnebre. Anda em passos lentos, meio curvado, semblante semiárido, tez mameluca, velha, enrugada, óculos escuros, mesmo à noite, como se fosse levantar voo o sol batendo em seus olhos. A ninguém cumprimenta. Pede cervejas e fuma um cigarro atrás do outro.

Tento conexão para, pelo menos, um balançar de cabeça. De inimigos, já os tenho muitos. Nada. Ao me ver, o que faz o sinistro?

Reproduz em seu celular, som o mais alto possível, o discurso de um deputado da bancada da bala, defendendo as ações policiais, na linha de que “bandido bom é bandido morto”. Pergunta como um policial pode avaliar, numa favela, se negros são bandidos ou trabalhadores. Então, que mandem bala ‘nesses vagabundos’ e depois descubram, caso contrário serão eles, os policiais, os mortos.

Não sei o nome de nenhum dos canalhas, e mesmo que soubesse não os citaria. Aprendi a evitar processos, como também não propagandearia tais imbecis.

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Gosto de ouvir música. Carrego na mochila um pequeno amplificador para locais em que não atrapalharei qualquer sono justo.

No dia fatídico, assim que ele acabou sua alocução, liguei o celular na altura máxima. Alto-falante ligado. Fui ao YouTube.

A resposta que dei vai abaixo. A múmia se retirou. Espero que para sempre. De hotel, não trocarei. Sou muito querido lá. Por carinho.

https://www.youtube.com/watch?v=zILRihi7lMg

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