Das luzes cores e pinturas, por Maíra Vasconcelos

por Maíra Vasconcelos

Escreverei. Evidentemente. Mais uma vez, escreverei. Se no teto há flores e as paredes são mais finas confortáveis. Se assim percebo meu quarto quando escrevo, em breves lapsos. Protegida do mundo. E tudo estará bem se há luz. Essa luz que remete à cor que remete à pintura, às vezes. Posso escancarar a janela. Ah, tanta luz. Então, quem escreve necessitará apreciar mãos de pura tinta? Diria: o vermelho significa a primeira ligeira camada vista por quem escreve. De raspão. E ainda: cores insinuam e esclarecem aquilo que a palavra escrita jamais alcançará – não se vive de uma só arte. Pinturas aliviam o olhar de todo aquele que escreve sem saber exatamente de onde tudo provém. Perguntas a um pintor: qual o lugar da luz na sua obra? Existe também o apagão? Se cada luz captada pelos seus sentidos pudesse ser colocada em versos, qual verso escreveria? Alguns escreveram. Muitos já pintaram o mar. Anita Malfatti. Ah. Será que o fremir de determinada luz também me faz escrever? Qual luz, então. Veremos. Qual luz, enquanto escrevo, enquanto crio essa mulher-animal disposta ao sol, desnuda diante do mundo. Enquanto escrevo, a luz artificial da minha janela, essa janela entreaberta ou escancarada. Sim. E a luz do sol mais amarelo que há? Anita. Qual a cor preferida de Anita Malfatti? Ou qual a sua flor preferida, queriqueri? Vou. Pisando e recolhendo flores, tantas flores. Para Mário, ela pintou margaridas. Talvez Carlos Scliar prefira uma forma um ângulo reto frente à luz, mais do que uma cor cheia de luz, um retângulo e um bule. Scliar olhava a luz pelo enquadramento dos objetos e os desmontava em mente para depois pintar?, enchendo ou esvaziando de luz, os objetos – como será que a guerra afetou os particulares olhos de Scliar? Não sei.

Talvez escreva uma crônica para este jornal, algum dia. Primeiro, essa história inadiável. Hoje, apenas isso: lembranças absurdas para escrever luzes. Lumiares. Vou. Assim, cheguei até aqui, enfim. Cheia de razões para escrever demasiado, quase durante várias horas. Todos os dias. Como agora. E nunca uma crônica? Talvez, uma história. Como ontem e hoje, de novo. Enquanto vejo existir modos de vida que não se perguntam sobre a luz, a luz que entra pela sala de jantar e mesa do café. Alguém viu uma beirada de luz hoje? Aqui, eis a luz artificial da minha janela, essa luz que conduzo entrar. Enquanto escrevo, enquanto crio uma mulher-animal disposta ao sol, ao amarelo. Ciente de que a luz é tanto. Indispensável. Sim. E diriam louco àquele que espreita a luz, louco é o pintor!, exclamação, obsessivo com a luz enquanto até o corpo humano sumiu da vista de todos. Há olhares insistentes à luz, essa luz que não significa nada ao mundo. Sim. Percebo a luz, cada vez mais percebo a luz, todos os dias.

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