De novo, Feliz Ano Novo?, por Izaías Almada

Como desejar feliz ano novo a cidadãs e cidadãos governados por Dória, Witzel e o incomparável Jair?

De novo, Feliz Ano Novo?

por Izaías Almada

Enquanto pensava sobre o que escrever para mais uma passagem de ano, lembrei-me de consultar nas centenas de artigos já escritos o que rabisquei no ano passado.

Qual não foi a minha surpresa ao deparar-me com um artigo que, se escrito ontem, era só mudar alguns poucos nomes e, mais ainda, alguns acontecimentos como as eleições do final de 2018, onde o Brasil escolheu, com a ajuda das maracutaias eletrônicas e digitais, entregar o poder a um bando de celerados…

Dando o devido desconto à repetição desprovida de sentimentos sinceros e a hipocrisia que geralmente as acompanham, além dos perus e panetones, para as mensagens natalinas e de fim de ano, continua no ar a dúvida hamletiana que paira sobre toda a sociedade brasileira nos dias que correm: como desejar a alguém um feliz natal e um próspero ano novo? Ser ou não ser? 

Como pode um país prosperar, crescer econômica, social e culturalmente, quando elimina, no dia a dia, boa parte das suas conquistas sociais dos últimos anos? Que destrói empresas nacionais através de uma espécie de caça às bruxas medievalista alcunhada de Lava Jato, entregando o Ministério da Justiça ao lobo que tomava conta do galinheiro? 

Quando entrega uma das nossas maiores riquezas, senão mesmo a maior delas, o petróleo, para a inesgotável sanha do capitalismo internacional e seu (neo) liberalismo econômico de bilhões e bilhões de pobres e miseráveis a trabalhar mundo afora para aumentar a fortuna de 1% da população do planeta?

Como pode um país, até então, com relevante projeção na economia global, maior potência da America do Sul, mais de duzentos milhões de habitantes, maior produtor de nióbio do mundo, solo riquíssimo em minérios, invejável manancial de água doce, ser governado por uma quadrilha de incompetentes administradores e dilapidadores do patrimônio público construído com o trabalho e o suor de sua gente mais humilde?

Um país que aceita um golpe de estado mequetrefe em 2016, em que os destituídos do poder político por meia dúzia de imbecis (mesmo com a ajuda dos espertalhões internacionais de sempre) foram e são incapazes de reagir, aceitando o golpe como uma coisa natural na política e até dispostos a perdoar os golpistas? Ou, se possível, até com alguns deles voltar a fazer alianças políticas para as eleições que se realizaram há um ano? 

Como pode um país laico se submeter a um parlamento dominado por corruptos, ignorantes e fundamentalistas religiosos que, entre outras barbaridades, se propõem a votar uma lei também medieval sobre o aborto?

Como posso desejar feliz ano novo a um conterrâneo meu sabendo que ele poderá incorporar e aumentar a lista de desempregados de hoje para amanhã? Que muitos dos seus direitos trabalhistas estão sendo rasgados e jogados na lata de lixo? E por uma amarga reforma da previdência? 

Como posso desejar feliz ano novo a professores e candidatos a cursos universitários, com a ignorância e o preconceito tomando conta dos ministérios da Educação e da agora Secretaria da Cultura? Onde a ação deletéria de seus ocupantes não apresenta nenhuma sintonia com os órgãos a que comandam? 

Com analfabetos culturais censurando o nu em museus e aberrações parlamentares que confundem Bertolt Brecht, o dramaturgo e pensador alemão, com Bertoldo Brecha, personagem de Chico Anísio? Ou O escritor Franz Kafka com a Kafta, comida árabe.

Há um lugar comum criado pela comunidade jurídica há muitos e muitos anos e que diz que “a justiça é cega”. No Brasil, desde o início da colonização portuguesa, ela é cega de um olho só, pois do outro ela enxerga muito bem e sabe a quem defender e a quem condenar. Um olho para a Casa Grande e outro para a senzala. Portanto, uma justiça caolha…

Como desejar feliz ano novo a cidadãs e cidadãos governados por Dória, Witzel e o incomparável Jair? A um país que tem parte do seu Superior Tribunal Federal a serviço da cleptocracia e que permite quase que diariamente o achincalhe e o deboche à Constituição, escondendo-se covardemente sob o manto protetor de uma imprensa que faz corar homens como Carlo Gambino, Lucke Luciano e Al Capone?

Constituição, aliás, que prevê a defesa da soberania do país pelas FFAA… Como, caro leitor, porque elas não estão agindo? Talvez não considerem que a soberania do país esteja ameaçada… 

Não tem problema: desejaremos feliz ano novo às multinacionais do petróleo, então, e aos seus lobistas infiltrados em órgãos do governo brasileiro. Afinal, para sermos “bons cristãos” temos que desejar feliz natal e ano novo a alguém, não é mesmo?

Idiotizados, caminhamos como carneiros para o matadouro de 2020, na suposição de que respiramos ainda alguma democracia, de que estamos de fato combatendo a corrupção, iludidos em nossa convicção de que nossas instituições republicanas não estão todas elas encharcadas de corrupção. Santa ignorância!

A cada dia que avançamos para o ano novo, avançamos na verdade para uma incógnita, incógnita essa que poderia ser desfeita se não tivéssemos, até agora pelo menos, nos tornado num país acovardado. E um país acovardado não tem como desejar a si mesmo um feliz ano novo.

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3 comentários

  1. Esta dificil desejar feliz ano novo quando se sabe que o ano que vem sera, penso eu, mais duro ainda que este para o povo brasileiro. Quem sabe deixaremos nosso comodismo e cansaço e desilusão e mudaremos nosso destino em comum. Seremos, então, uma grande Nação.
    “…feliz ano novo
    no corpo, nas docas
    os ratos nas tocas
    comprando os navios
    no sarro ou no cio
    no lado sombrio
    do fio da navalha
    feliz ano novo
    cantando ou calada no blue
    na balada com a boca na trombeta
    no grito, na greta, no gol
    na mutreta atrás de gente fina…”
    Egberto Gismonti

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