Desesperança em levada de crônica, por Rui Daher

Não sei, uma hora da madrugada da segunda-feira, domingo acabrunhado, deveria calar-me e descansar da semana de frustrações. Não sei, como de nada nunca saberei.

Lula

Desesperança em levada de crônica, por Rui Daher

O que eu poderia estar fazendo, na casa paulistana, depois de uma semana de frustações agropecuárias, viajando pelo estado de São Paulo, e sendo cobrado pelos credores de nossa empresa? Muito difícil ser pequeno empresário no Brasil atual. Já foi mais fácil. Bastavam ideias, inovações e trabalho. Tive de tudo isso no passado e os entreguei a meus patrões. Pior, quando você se lembra de quantos você os fez se tornarem ricos, e hoje cobram-no impiedosamente.

Beirando os 74 anos de idade e mais de cinquenta de trabalho, ainda tenho um pouco dos três atributos acima, mas tudo não me parece valer nada.

A vocês clareio, como o alvorecer que logo virá, manter-me um cronista, como escreveram Nassif e Márcio Alemão, nos prefácio e contracapa de meu único “Dominó de Botequim”.

Mas não só. Tanto em CartaCapital como aqui tenho feito análises premonitórias sobre a economia e, especificamente, o agronegócio brasileiro. Basta conferirem esses 15 anos de colunismo, do Montbläat, de meu saudoso amigo Fritz Utzeri, até chegar aos GGN e CartaCapital, depois de passar pelo “Terra Magazine”, de Bob Fernandes.

Mas. Certeza, não o farão, a informação corre rápida, a fila anda. Nem eu mesmo me disponho a fazê-lo para organizar um segundo livro de crônicas.

Sinto-me desacorçoado para escrever sobre os momentos político, econômico e social do Brasil, depois da estupefação em descobrir como milhões de eleitores brasileiros, da elite aos mais miseráveis, tiveram coragem para se aproximar da serpente, pegar em seu rabo, e levantar o cu da cobra para altas picadas. Covarde, eu não tive.

Decorridos quase 90 dias, parece-me que alguns desses corajosos começaram a sentir os efeitos da picada e de seu veneno. Não sei se a eles desejo morte dolorosa e lenta ou que se recuperem e se arrependam da merda que fizeram.

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Como cronista que, desde 2016, pós-impeachment, sugere galhofa, escracho, deboche, para combatê-los, hoje em dia, como disse logo no início deste texto, sinto-me desacorçoado.

Eles viraram piada pronta, apud José Simão. Todo mundo conta a sua. Escolhe-se a melhor do dia, como fazia ou faz a Seleções Reader’s Digest. Creio-me de pouca serventia. Vocês não?

Pergunto-me, pra quê; consulto o Conselho Celestial do Dominó de Botequim; ateu, oro; ignorante, leio e volto aos clássicos da literatura brasileira; afinal, por que nesta finitude leria os geniais poemas do italiano Ludovico Ariosto (1474-1533), em “Orlando, furioso” traduzido para o português, em excepcional trabalho de Pedro Garcez Ghirardi. Aos mais jovens recomendo, saberão mais sobre vida e amor.

Não sei, uma hora da madrugada da segunda-feira, domingo acabrunhado, deveria calar-me e descansar da semana de frustrações. Não sei, como de nada nunca saberei.

Sempre me penso em outro destino. Ao invés de filhinho-de-papai, com ele morto quando eu tinha 19 anos, não fosse melhor ter nascido no Nordeste brasileiro e vir a São Paulo para tornar-me metalúrgico e perder um dedo no ABCD de São Paulo.

Mas, não. Em tudo fui formado como se faz a burguesia. Valeu? Talvez, ELE o maior estadista do Brasil está preso, e eu solto. Agradeço ao Acordo Secular de Elites. Bom dia Presidente Lula.