Deus e o diabo na Terra da Piedade, por Rui Daher

Haverá trabalho duro no dia seguinte. No anterior, chuvas torrenciais fizeram embaçar estradas, zonas urbanas e rurais.

Deus e o diabo na Terra da Piedade, por Rui Daher

Madrugada no quarto de hotel em cidade do interior paulista. Reviro-me na ampla cama. Arrasto-me por todos seus quadrantes. Opto pelo sonífero. Apenas meio comprimido, vá lá. Haverá trabalho duro no dia seguinte. No anterior, chuvas torrenciais fizeram embaçar estradas, zonas urbanas e rurais. Nem curta interrupção para, à noite, permitir-me cachimbo, charuto, ou singelo álcool. De salineiras fui proibido por motivos exteriores, que incomodam os próximos, mas mantêm-me com boa saúde.

E quando assim é, eu fico “triste tristinho, mais sem graça que a top model magrela na passarela, eu ‘tava’ só, sozinho, mais solitário que um paulistano, que um canastrão na hora que cai o pano, ‘tava’ mais bobo que banda de rock, que um palhaço do circo Vostok”.

Mas não, caro Zeca Baleiro, não recebi um telegrama “de Aracaju ou do Alabama, dizendo nego, sinta-se feliz, porque no mundo tem alguém que diz, que muito te ama”.

O que recebi foi uma metralhadora giratória de palavras alucinadas, acompanhada por batida de (re)percussão afro-brasileira. Era Glauber Rocha, vestido à semelhança de Luna, emblemático personagem de “Bacurau”. O cineasta baiano assobiava e zunia pelo quarto do hotel.

Parou na minha frente, ao pé-da-cama. Adapto Caetano, em Tropicália:

“Na mão direita, uma roseira AK-47, autenticando eterna primavera; amarrado ao pulso esquerdo, um facão de bang-bang nacional, porque fazer correr muito sangue é essencial”.

À vera é o seguinte: sempre que estou de mal comigo ou Deus, gripado ou perto do derradeiro ‘suspirro’, o Conselho Celestial do Dominó de Botequim – Darcy, Ariano, Melodia, Dr. Walther, Alfredinho e Beth -, quando não um deles, envia alguém à Terra para me amparar. Daí, Glauber.

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“Aperreia não, bichinho. Lembra daquela assembleia estudantil no CRUSP, circa 1970, quanta pórrada demos num bando de revisionistas? Tudo pecezão. Desde aquele tempo tu devia saber quem são os brasileiros, a seguirem a vanguarda empoada. Nada aprendeste lendo Darcy, ouvindo as aulas do professor Suassuna, Melodia ‘Lava a Roupa Todo o Dya’, Salles do capitalismo não selvagem de Golbery, Alfredynho ‘esborniando’ em Copacabana, Beth comuna verde-e-rosa do Cacyque de Ramos? Incomodado com Bozudrungaro? Di menos. Foda são os empoados, mentirosos, canalhas, de aspecto ‘clín.’, perfumados amoêdos, geraldos, dórias, hucks, e ozamigos que zunem em seus olhos e ouvidos, bancando exatidão, o caminho do meio, que sempre me lembraram genitálias e cus, orando por seus também centrais umbigos. Não se vexe, não, bichinho. Cê luta. Ozamigos certinhos vivem de fazer errinhos, mas só com o populacho, populista, esculacho, do escracho que é nossa elite. Mas tem os pyores. Aqueles que vivem no exterior, e quando em séjour pelo Bananão, termo bem bolado por Ivan Lessa, querem-nos pasteurizados. No rabo! Pro nosso gosto, se não tem Lula ou eu, vamos de capitão boquirroto, que a gente, como manada, segue. Se aperreie, não. Lá em cima, estamos vendo tudo. Mesmo os da Estação Inferno. Visito-os vez ou outra. Alguns mereceram, outros não. Só não vou ao Bairro Purgatório, lá estão os que enganaram o Bondoso e o Capeta. Quem não entendeu que meu filme “Idade da Terra”, foi meio copo de cachaça para “Bacurau”. Em 1980, eu tava virado no Cão. “Povo, tome o seu lugar. O processo vai começar. Bendito sejam aqueles que têm fome. Bendita seja a miséria. Porque um dia eles te libertarão”. E o Pitanga transformado em Agreste Espinhoso. Sempre assim será. Bichinho, afaste olhos e ouvidos daqueles que, ainda vivos na Terra, foram eleitos para purgar no subúrbio do meio. A ti, a Estação Céu, Bahia e Cuba, tão garantidos”.

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– Tchau, Glauber. Obrigado. Um abraço na meninada do Conselho.

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