Diário da Peste 25, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Café da manhã, retoques no texto. Banho quente. Ducha fria. Pomadas para aliviar a dor da tendinite. E lá se foram algumas horas.

Diário da Peste 25
Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Hoje foi um dia bastante desagradável.

Acordei com dor no ombro. E para piorar o tempo nublado não me permitiu tomar banho de sol na sacada do apartamento.

O calor do sol é tão agradável que faz esquecer a dor. Hoje fui obrigado a lembrar dela à cada segundo. E mesmo agora não posso esquece-la. Quem sabe amanhã um esplendoroso céu limpo permita à brilhante divindade dos egípcios incinerar os males do meu corpo.

“Aqueles que estão na terra vêm de sua mão como você fez.
Quando amanheceu eles vivem.
Quando você define eles morrem;
Você mesmo é vida, se vive por você.
Todos os olhos estão sobre sua beleza até que você definir.
Todo o trabalho cessa quando você descansa no oeste;”

Fragmento do Hino de Aton

Logo de manhã esbocei algo sobre o fordismo funerário bolsonariano, conceito elaborado durante uma noite longa e cansativa. Quando pesquiso e dígito meus textos a dor desaparece.

Trabalhar animado e ser iluminado pelo sol produzem o mesmo efeito terapêutico. Aqueles que trabalham sob o sol no que gostam são privilegiados.

Os privilégios desaparecem durante uma quarentena. Os ricos não podem desfrutar em liberdade sua riqueza. Os pobres estão acostumados ao confinamento e à vida na beira do abismo. Todos saem de suas prisões usando a internet, mas a liberdade virtual é ilusória quando a pessoa consome Fake News.

Sombras brilhantes projetadas numa caverna high-tech luminosa. Touchscreens que prometem uma felicidade customizada e que podem entregar apenas aquilo que os mentirosos encomendam para ser distribuído em massa. Os algoritmos que fisgam nossas consciências e deixam muitos descabeçados.

Café da manhã, retoques no texto. Banho quente. Ducha fria. Pomadas para aliviar a dor da tendinite. E lá se foram algumas horas.

As 11:30 ligo a TV e o computador a ela conectada. Depois vou preparar o acompanhamento do macarrão. Antes de almoçar uma taça geladinha de Terranova “made in Bahia”. Quem diria… Quando conheci o Estado de origem do meu bisavô lá se produzia apenas cachaça e licor. Agora produz champanhe francesa sim senhor.

Passei a tarde vendo documentários. Depois conversei com um amiga pelo Whatsapp. Ela tomou vacina para gripe e reclamou da dor no braço agulhado. Pronto. Lembro uma vez mais que meu ombro está dolorido. Pomadinhas para acalmá-lo.

E para encerrar o dia mais um filme de múmia da Hammer Film Productions. Gosto de rever sorrindo filmes antigos que assisti apavorado quando era criança. Quem sobreviver à pandemia e a esse desgoverno que pretende usá-la para realizar o sonho macabro de Henry Kissinger* dará boas risadas daqui há uma década quando reler diários como esse.

A bateria do celular está acabando. A minha já acabou há alguns minutos.

 

* Ex-secretário de estado norte-americano que acreditava (talvez ele ainda acredite) que a missão dos EUA era depopular os países do 3° mundo. Kissinger não morreu. Ele foi mumificado pelo prestígio imerecido e pela soberba genocida.

 

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