Dignidade humana e liberdade jornalística, duas coisas inseparáveis, por Fabio de Oliveira Ribeiro

"As pessoas que não se encaixarem no modelo de virtude que um genocida criou podem, devem ou merecem ser destruídas"

Cena do Filme Coringa (2019). Reprodução

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Enquanto me deslocava pela urbe fiquei procurando argumentos para repelir a escandalosa perseguição imposta ao jornalista Luís Nassif pelo genocida Wilson Witzel. Então tropecei em outro assunto.

Um mulato desgrenhado sentado na mureta que separa o estacionamento da prefeitura de Osasco da calçada chamou minha atenção. Ele estava descalço, sujo e vestindo apenas um imenso saco de lixo negro. Com um dos braços ele segurava algo por baixo do traje improvisado. A conduta dele despertou minha atenção.

A moça branca bem vestida sentada no banco de um corredor do Shopping União, também em Osasco, movimentava os braços como se estivesse dançando. Totalmente alheia às demais pessoas, ela estava com fones nos ouvidos e aparentemente via algo na tela do Smartphone conectado à internet.

O rapaz tem uns trinta anos. Eu nunca tinha visto antes. Conheço a moça de vista, pois ela costuma pegar o ônibus que uso quando retorno para minha casa. Já a vi no Shopping algumas vezes.

Após algum tempo, o rapaz retira o objeto que estava segurando embaixo da roupa miserável. O copo está quase cheio de um líquido amarelo. Ele cheira a urina e encosta o copo na testa. Depois ele o segura em frente do rosto e abaixa a cabeça por algum tempo como se estivesse rezando.

A moça no Shopping tem uns vinte e poucos anos. O rosto dela é bonito e infantil. No ônibus, sempre que alguém a interpela por qualquer motivo, ela diz o nome e onde mora. Depois, conta que foi criada pela avó e que tem uma deficiência. “Em sou boba, mas as pessoas não podem se aproveitar de mim.” A primeira vez que a vi fazer isso fiquei surpreso.

Do outro lado da rua, no ponto de ônibus, presto atenção no mulato maltratado pela vida. Ele vai beber a própria urina? Dizem que isso é saudável, mas eu não teria coragem de fazer algo semelhante. O homem de meia idade ao meu lado também observa a cena. Ele demonstra imensa repugnância quando vê que o mendigo cheirou novamente o líquido asqueroso. Gandhi tomava sua urina quando jejuava numa prisão inglesa. O líder indiano viveu para fazer História. Nenhum de nós fará algo tão importante.

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Enquanto o rapaz movimenta o líquido no copo como se fosse ingeri-lo, eu divago. Se ele jogar urina em alguém a confusão será imensa. Mas então o mulato faz algo surpreendente naquele contexto. Ele levanta da mureta onde estava sentado e derrama cuidadosamente a urina na sarjeta e vai embora arrumando o traje desajeitado.

Apesar de repulsivo, o mendigo é tão inofensivo quanto a moça do Shopping. Impossível dizer até que ponto a ação dele foi uma encenação, pois assim como era observado ele também poderia estar observando as reações da pequena platéia do outro lado da rua.

A moça e o mendigo são Coringas. Digo isso pensando no filme que foi comentado por várias pessoas aqui mesmo no GGN.

Algumas vezes a vida mimetiza a arte, outras não. É evidente que a sociedade brasileira não tratou da mesma forma os dois Coringas osasquences. A moça foi ensinada a conviver com sua deficiência e o mulato provavelmente acabou sendo abandonado à própria sorte. Ela tem uma casa para onde voltar. O lar dele é um mundo inóspito do qual ele não pode sair. Ela está desconectada do mundo e conectada à internet. A conexão dele com a fantasia não é feita através de um Smartphone.

O respeito à dignidade humana de todos os cidadãos, inclusive daqueles que foram mencionados nesse texto, é um fundamento essencial do nosso sistema constitucional. Genocidas como Wilson Witzel são incapazes de deixar de fazer distinções. E é nesse ponto que os dois assuntos (aquele do qual eu queria falar e aquele de que falei) se entrelaçam.

As pessoas que não se encaixarem no modelo de virtude que um genocida criou podem, devem ou merecem ser destruídas. Aquelas que já foram ou que vierem a ser feridas, mutiladas, presas, impedidas de trabalhar ou mortas certamente não participam dos preconceitos do governador carioca. Participar deles é o verdadeiro problema. Felizmente, esse não é o caso do editor do Jornal GGN.

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Desde que demonstrou que os lacaios da Ditadura Militar estavam fraudulentamente reduzindo os reajustes salariais devidos aos trabalhadores, o jornalista Luís Nassif rema contra a correnteza (ou seja, ele defende a dignidade humana daqueles que se encontram em situação vulnerável). Se ele apoiasse um genocida como Wilson Witzel, o estranhamento seria inevitável e generalizado. Ao denunciar a catástrofe humanitária que se esconde por trás da violência estatal crescente e do discurso autoritário e policialesco do governador do Rio de Janeiro, Luís Nassif está sendo fiel a si mesmo e ao jornalismo. Ele merece todo respeito e apoio dos cidadãos e das instituições.

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1 comentário

  1. Quem disse que o jornalismo não pode ser lúdico e objetivo ao mesmo tempo? Parabéns Fabio!!! Estamos juntos nessa solidariedade irrestrita ao Nassif.

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