Digressões sobre o imaginário coletivo brasileiro. Parte 4, por Rui Daher

Até aqui, apresentei-os aos momentos em que poderíamos ter sido uma nação feliz. Pesquisem e leiam.

Digressões sobre o imaginário coletivo brasileiro. Parte 4, por Rui Daher

“Foram me chamar, eu estou aqui o que é o que há, eu estou aqui o que é o que há, eu vim de lá pequenininho, eu vim de lá pequenininho, alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho. Sempre fui obediente, mas não pude resistir …”

Não, não nasci na Bahia, nem vim de lá pequenininho, mas gostaria de ter a malemolência baiana. Até tento. Para não ser um paulista anódino, puxado em Botox, camisa polo com distintivo gigante no peito, boy do Clube Paulistano, sem qualquer cor ou graça tropical e nenhuma margarina.

O pisar devagarinho se refere ao chão movediço em que escrevo e procuro palavras para entender escuridão, falta de indignação e silêncio com o ridículo, acomodações que afetam o atual imaginário coletivo brasileiro.

Daí, nos três esquartejamentos históricos anteriores, ter partido de Jânio Quadros e as eleições de 1960. Precisava completar 60 anos para lembrar que já tive 14 e fui feliz. Sigo.

No período da Nova República, 1985 e até hoje, foram 35 anos. Pouco sobrou de melhor para a população pobre. Pequenas inserções e o Brasil entrou na lorota do capitalismo financista, como se capitalista ele fosse. Modelo inibidor de empregos, não só pelos avanços tecnológicos, mas sim pela ganância da grana fácil, sem distribuição de renda e direitos cidadãos.

Tenho certeza disso? Óbvio que sim. Quem quereria entregar privilégios e anéis, a não ser, no século 18, o rico contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira (Mariana/MG, 1721 – Lisboa, 1779), ao se apaixonar pela escrava Francisca da Silva de Oliveira (1732-1796), Chica ou Xica, em relação consensual que originou 13 filhos.

João, talvez, contratasse bem na cama e não somente diamantes. Teve novela, mas melhor é o filme (1976), dirigido por Cacá Diegues, com a maravilhosa Zezé Motta, e os atores Walmor Chagas e José Wilker.

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Se você não foi ao Arraial do Tijuco, atual Diamantina, então vá. Fui duas vezes e lá conheci a casa onde moraram.

Mas, tristes, voltemos às sagas atuais do Brasil.

Sim, desandamos. Será que, em troca da liberdade de expressão, a democracia, não seria melhor a austeridade dos governos militares e suas racionalidades e defesas da soberania e dos patrimônios nacionais?

Não me execrem, mas ao que está aí e virá, pensem.

Com a volta da democracia, o que tivemos? Anos de mixórdia. Tentativas de inserções exteriores e internas, aberturas de Collor, o Plano Real de FHC, anos do PT, o antipetismo reificado como mensalão e Petrobras, práticas calhordas no Brasil e mundo, mas históricas e comuns, e que o PT, infelizmente, não soube administrar.

Não poderia dar outra. Chegou-se a Bolsonaro, tragédia inconclusa, mas socialmente anunciada.

“Tente passar pelo que estou passando, pérola negra, te amo, te amo”.

Até aqui, apresentei-os aos momentos em que poderíamos ter sido uma nação feliz. Pesquisem e leiam.

De agora em diante, na série, será o fim, que graças aos anjos Pixinguinha, Ignácio Rangel, Câmara Cascudo, João Cabral, Glauber e Wally Salomão, todos precisarão viver.

Inté! A Parte 5, deste esquartejamento, seguirá,

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