“Do Pirajá ao Coqueiro com Ariano Suassuna”, por Rui Daher

Sempre temos muito a aprender. Por isso morro junto quando artistas e pensadores que amo se vão sem que eu pudesse tê-los conhecido pessoalmente ou deles me aproximado. Sei que muito do que sabiam ainda não havia sido registrado em suas obras.

Foi assim quando, em julho de 2014, no Recife, um AVC nos tirou Ariano Suassuna. Coincidentemente, naquele dia, eu escrevia um texto sobre esse armorial de cultura, nascido paraibano em 1927 para nos fazer brasileiros melhores por 87 anos.

Lembro-me de ter parado a escrita e somente hoje, quase dois anos depois, ter tomado coragem para continuá-la. Levou-me a isso o Largo da Batata, na cidade de São Paulo, onde percebi como o Nordeste de Ariano veio aqui parar, permanecer, e abrir a Avenida Faria Lima, espalhando trabalho nos edifícios, shoppings, escritórios de empresários, executivos, advogados, médicos.

A aridez do concreto do Largo se torna verdejante quando os peões do cotidiano, periféricos pingentes e balconistas, lá se reúnem para a condução ou o divertimento.

No último 24 de março, eu e o dileto Fernando Juncal, amigos jurássicos neste blog, depois de um estágio na esquina carioca de São Paulo, o “Pirajá”, fomos andando até o Largo para nos manifestarmos contra o golpe.

No caminho, já um tanto ofegantes, reconhecíamos incapacidade de marchar até a Rede Globo. Para quê? Ela sabe o que pensamos dela. Agora é a vez da molecada que não se deixa manipular. Nós, velhos idealistas de um país menos desigual, já apanhamos o suficiente.

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Um segundo boteco nos seria mais adequado, o “Coqueiro”.

Lá encontramos Ariano Suassuna. Assistia a um cantor violeiro e um percussionista louvarem o Nordeste e seu povo. Sorria vendo seus negros, pardos, nordestinos, brancos, orientais, “forrozeando” no batuque. Cervejas, cachaças, macaxeiras fritas, passeavam entre as mesas que se estendiam pelos metros redondos da Batata, vezes inóspita, vezes cosmopolita, vezes irrigada pela chuva, que vinha e ia.

Suassuna formou-se em direito, mas foi dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta. É assim com muitos de nós, obnubilados pelas profissões mais à cara e tardiamente descobertas mentiras.

Dele, tenho carcomidos três livros, “Auto da Compadecida”, o “Romance d’A Pedra do Reino” e a peça “O Santo e a Porca”. Penso se meus filhos os recolherão antes de doá-los, drama atual de qualquer setentão devorador e guardador de livros.

Ariano escreveu muito mais, sei, mas esses foram os que chegaram a mim. O mais fui pinçando aqui e ali. Em 1958, fundou com o escritor pernambucano Hermilo Borba Filho (1917-1976), o Teatro Popular do Nordeste. Doze anos depois, o pau comendo solto, o “Movimento Armorial”. A cultura tradicional nordestina se fazia popular e a cada descoberta mais eu me abrasileirava.

Pela cultura, ele abandonava suas claras posições políticas à esquerda, vivas e claras em todas as suas escolhas eleitorais e declarações públicas. Durante a ditadura, em 1967, foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura e professor de Estética da UFPE. Com Miguel Arraes (1994 a 1998), assumiu a Secretaria de Cultura. Assessorou Eduardo Campos, até 2014.

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Não consigo, em minhas viagens a trabalho para o Nordeste, parar um minuto de sentir nos semblantes de quem passa as lições que li e ouvi de Ariano Suassuna.

Prestes a deixar o “Coqueiro”, uma voz me sussurra: “Termina o texto, ele deixou. Mas não se esqueça de mim”.

Para acompanhar a última cerveja pedimos dois bolinhos como homenagem ao Bacalhau do Batata. A Faria Lima se fez ladeira de Olinda, sem quarta-feira de Cinzas, pois nela nos esperava com um grande sorriso o gaúcho Darcy Ribeiro.

– Obrigado, Darcy, pela negociação. Em troca te prometo lutar contra o golpe. Avisa o Briza!

“Eu digo sempre que das três virtudes teologais, sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança.” (Ariano Suassuna)

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