Dominó de Botequim, o Retorno – Capítulo 2, por Rui Daher

Por Rui Daher

O que são dois anos em nossas vidas? O tempo passa voando ou não passa. A cada momento e situação pensamos de um jeito. É comum achar que, afastados 24 meses de pessoas ou locais, ao voltarmos, os encontraremos mudados. Nem tanto, mas que nada. Nos hotéis antigos os mesmos velhos recepcionistas, em restaurantes os solícitos garçons de sempre. Meus médicos só mudaram quando se puseram a copiar os advogados e se determinaram o uso obrigatório da gravata sob o jaleco branco.

Passei uma semana pensando nisso, depois de instado pelos amigos Fernando e Manoel, e a incisiva carta do Conselho Consultivo, os membros incrédulos com minha prolongada ausência.

Poderia relutar? Dois amigos e coautores do livro, e quem muito inspira meu escrevinhar, Darcy, Ariano e Melodia. Além do potencial financiador Walther.

Mas quem me conhece já percebeu. Sou tímido, inseguro em algumas situações, temo ouvir “não”, motivo de pouco pedir ou exigir. Aliás, pode ser isso a fazer encalharem alguns exemplares do livro. Mesmo às livrarias que ainda não me devolveram os saldos, evito cobrar. Para quê? Mais decepção?

Pensei dar mais um tempo antes de voltar, mas a curiosidade era enorme. Vontade de rever os amigos, quem se foi, quem ficou. O Serafim estaria feliz? E o Netinho, agora misto de gerente e caixa?

Claro que durante esse período a fúria digital me alcançou. Recebi mensagens de vários dos antigos frequentadores, sempre perguntando de meu sumiço.

A cada um dava uma resposta, predominou a desilusão com o Brasil pós-2015. Outras: caminhar ambulante para terminar de vender os livros; desempregado tinha virado balconista de uma loja de tecidos no interior paulista; topara convite de um amigo velejador e estava nas Ilhas Maurício; acidentara-me depois de uma bebedeira no Peru. Aos que me flagravam no Facebook e solicitavam amizade, sempre recusei.

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E assim passaram-se quase dois anos. Refleti: que seja. Mesmo sem coragem, na próxima segunda-feira terei que enfrentar o dentista. Apenas um senão, tratado como decisão ditatorial, ato institucional, defendido com AK-47 se preciso for: sem festa, homenagens, faixas de “ele voltou”, ou beijo na boca. Quero o trivial do passado.

Felizmente, ela sempre chega. Quem? A galhofa, ora pois. Neste caso, ajudada pela timidez. Iria disfarçado. Sim, mas como? Todos bem me conhecem, características físicas facilmente identificáveis: sorrisão sempre aberto, olhinhos apertados, estatura e cabelos em queda acelerada, ombros caídos com o peso de um País não soberano e desigual, pernas fracas e bambas em andanças pelos campos de cultivo.

Barba por fazer, cara fechada, pernas-de-pau, peruca, camisa da seleção com a inscrição “In Moro We Trust”? Pouco.Ninguém aceitaria alguém assim no boteco.

Matuto matuta, certo, caboclos, campesinos, sertanejos e, vá lá, ruralistas?

Diante de uma série de quedas involuntárias, nem sempre etílicas, mas que me serviram alguns pontos em cabeça descabeçada e preocupação familiar e de amigos, o autor da contracapa de meu livro, que não perde piada, me deu no aniversário um capacete de motociclista, mesmo sem eu nunca ter subido num veículo assim.

Todos saudaram o mimo. Poderia enfrentar qualquer boteco ou as salineiras de casa sem risco de rachar o coco. O capacete me protegeria.

Nas imagens, o que usei para chegar irreconhecível ao Botequim do Serafim para a primeira partida de dominó.

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Nos vídeos, um certo parentesco, não?

https://www.youtube.com/watch?v=0qT3wXawCdI]

[video:https://www.youtube.com/watch?v=BTh-FaYlo60

 

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