Dominó de Botequim, o Retorno – Capítulo 5, por Rui Daher

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Dominó de Botequim, o Retorno – Capítulo 5

por Rui Daher

Pouco lembro do que se passou comigo nos dias seguintes à morte de Serafim. De casa não saí, os feriados foram finados, não atendi aos chamados telefônicos, desliguei o celular, não entrei na internet. Pelo ronco estrondoso do motor da moto, percebi que Cyryllus veio me visitar. Insistiu na campainha, esmurrou a porta, gritou, bateu palmas. Se foi. Deve ter percebido que eu me fingia de morto, embora morto realmente estivesse.

Saber o quê? Como foi? Quando? O que Serafa, o Portuga, estava fazendo na hora de partir? Foi cremado ou enterrado? Onde? Preferi supor tudo isso, em forma de quebra-cabeças de lembranças. Dois anos sem vê-lo. Foi como passei a semana. Somente colei um recado no lado externo da porta avisando à faxineira que não precisaria vir naquela semana.

Já que escolhera finar em solidão, muito bebi, pouco comi. Restolhos da geladeira sem esquentá-los. Provável em alguns períodos ter dormido ou desmaiado. Minhas quedas são cada vez mais frequentes, doloridas e perigosas. Sinais de vômitos caminhavam do sofá da sala até o banheiro.

No dia 2, ouvi uns sons estranhos na casa, de arrumação, arrastar de moveis, tilintar de louças e vidrarias. Provável efeito de salineiras, piscos, licor de alcachofra, e uma antiga garrafa reminiscente de “Fogo Paulista”, que deveria ser sobreposta ao meu caixãozinho, feito sob medida depois que Yara, a enfermeira do meu médico, tivesse garantido o metro e quarenta centímetros que à época eu teria. As bandeiras do Flamengo, do Santos e a estampa de Che Guevara complementariam a cena fúnebre.

Mas, ontem à noite, sábado, com todo o respeito, e perdão pelo reduzido calão, será inevitável dizer: fodeu!

Começou com um psiu! A casa em trevas como permaneceu toda a semana. Uma voz nordestina, como a de alguém que fala com um ovo na boca, fez-me ouvir:

– Tá assim por quê? Lembre-se de Galdino: “não sou ateu, só não simpatizo com Deus, nosso Senhor, me garantindo, daqui até eu morrer, carne de sol com farofa, rapadura com cariri, água de quartinha, uma rede à sombra de um juazeiro para eu me espichar nela, o céuzinho Dele pode dar a quem quiser, que não me interesso não”.

– Ariano?

– Claro, besta, quem mais?

– E os outros?

– Tudo aqui, morrendo de rir com esse seu mimimi.

– Porra! Sofro com a morte de Serafim. Poderiam respeitar meu momento. Darcy, como antropólogo, explique o significado da morte, da saudade, do luto.

– Puto? Eu aqui no céu? Só com preservativo, tchê. Você não imagina cada coisa que vem pra cá. Maior moleza se fazer de certinha aí embaixo e passar na roleta. Outro dia, o Briza entrou na maior fria com uma camponesa linda.

– Não, era luto, Darcy.

– Rui, é Walther, eu te entendo. Venha para cá.

– Como? Mas aí preciso morrer?

– Precisa. E o que te prende aí embaixo? Tá com muita grana? Mulheres bonitas à vontade? Ou acha que por ser de esquerda vai pegar uma Fátima? Elas querem jovens. Até de esquerda. Sabe o que poderá te sobrar? Uma dessas feicebuquianas balzaquianas desesperadas.

– Walther, quero falar com o Melô.

– Manda aí, branquelo tontinho.

– Finalmente, alguém que irá me entender. Sabe, o Serafa …

– Pode parar. Se nós te arrumarmos uma baby magrelinha, você esquece o portuga em segundos.

– Merda. Ninguém sério aí para eu poder conversar?

– Claro que sim. O próprio Serafim. Ou você acha que ele subiu porque aí estava muito bom, dois anos te esperando aparecer, a amante de Marsilac morta, o Temer e o Meirelles afundando o boteco. Subiu, pô!

– Nanico, o Deus-Presidente nos autorizou a abrir o Dominó de Botequim. Ele que organizou a noite de inauguração. Nem te conto. Vem.

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