Dominó de Botequim, Série 2, Episódio 12 ou 13, por Rui Daher

Dominó de Botequim, Série 2, Episódio 12 ou 13

por Rui Daher

– Baixou a orelhinha, hein velho? Tomou uma bronca, não? 

– Darcy, tu falas como gaúcho e depois quer que saibam que é mineiro.

– Pensas que aos 72 podes deitar e rolar? Só quando subir aqui conosco. Ou tu achas que alguém, além de nós aqui, pode ajudar a equipar a esquerda? Os que sobraram estão todos aí peleando chifres, esqueceram de nossos livros, ações e devolveram o povo pra direita. Tem mais: quem fala pra ti não é Darcy, mas o companheiro Brizola.

– Briza? Caçamba! Ainda ontem falava para um amigo da falta que tu fazes.

– Pode deixar o gauchês e usar o paulistês. Ainda não esqueci.

– Estou sem espaço. Os magros pra quem escrevo me acham ultrapassado, quando não alcoólico. Se dizem modernos, mas para angariar fundos deixam qualquer um escrever. Perdem em qualidade. Não percebem que, no passado, nem as más impressas faziam isso.

– Quem escreve à esquerda e faz jornalismo honesto precisa se virar assim. Para com os boleadores. Não seremos nós a meter-lhes o relho. 

– Briza, o Darcy tá aí?

– Vou ver.

– Chama.

– Fala! Tristinho e com o rabinho entre as pernas, hein? Quando vai entender que não estamos em 1970? Aonde você escreve, a maioria dos leitores nem sabe o que foi o Pasquim, os textos ferinos do Tarso e do Ivan. Aliás, semana passada encontrei-os, disputando Ava Gardner. Aqui são amigos e te mandaram beijos. É site, meu velho. Quantidade, volume, dinâmica. Você queria o quê? O Correio Paulistano?

– Já passou, reações árabes exacerbadas. Darcy, não foi pra ouvir isso que te chamei. Lembrei-me do Noel Nutels. Vai pra 45 anos que ele foi morar aí com vocês, certo?

– É … veio muito cedo, com 60 anos. Alguns de nós viemos mais tarde. Boa lembrança, Rui.

– Nasci um ano antes que ele. Eu em Pouso Alegre, ele na Ucrânia. Numa viagem a Recife o conheci, não me lembro o ano, sei que ele estava terminando Medicina na Federal de Pernambuco. Ajudei-o comprando umas rifas.

– Poucos dessa boa formação brasileira não foram ajudados pelo senhor, Dr. Walther.

– Fomos muito amigos, um indigenista judeu, quem diria?

– Isso é o que me irrita, Darcy. Qual “papagaio” de site se lembraria dele?

– Calma, Rui. Assim o acusarão de não ter foco.

– Oi, Ariano.

– Fora o Darcy e o Cláudio Villas-Boas, com quem ele ajudou a criar o Parque do Xingu, em 1931, converso com muitos amigos dele aqui. Ele mesmo, pouco vejo. “Vive” meio recluso, deprimido.

– Pudera, vendo o que fazem lá embaixo com os indígenas não dá para sair sambando.

– Certo, Melodia.  Esperto fosse teria ficado no Recife ou no Rio, como médico de grandes ganhos. Resolveu ir para Botucatu, em São Paulo, trabalhar no Instituto Experimental de Agricultura e, em dois anos, tornar-se o médico da primeira expedição Roncador-Xingu.

– O gaúcho Moacyr Scliar, bom de birita, escreveu um baita livro inspirado no Noel, A Majestade do Xingu. Quando você quiser convido ele para um papo. 

– Prefiro falar pessoalmente. Ainda não dá pra me levar? Falem aí com Ele.

– Pô, vai continuar insistindo.

– Ariano, aqui a coisa tá feia. Todos se acotovelando, passando lição de moral e comportamento uns para os outros. Puta chatice. Pior que são todos iguais quando tratam de seus umbigos. Poucos sabem que “A Pedra do Reino” é sua obra-prima, que o Melô compôs “Fadas”. Você, Darcy, foi contra o golpe de 1964 porque queria implantar, com Jango e Briza uma ditadura comunista no Brasil. Dr. Walther estaria sendo investigado pelo Moro.

– Sossega o leão, Rui, sabemos que não demorará muito para você vir se unir a nós. Só não podemos revelar quando.

– Que seja breve. Inté. 

https://www.youtube.com/watch?v=Arpl7QiATok 

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