E cada palavra sempre tão incerta, por Maíra Vasconcelos

E cada palavra sempre tão incerta, por Maíra Vasconcelos

E nunca foi aqui perguntado: quem atira essas flores ao chão? Os apressados do mundo? Talvez. Mas ainda essa resposta não há, completamente. E por que tantas flores ao chão? Flores que talvez não devessem ser prontamente abandonadas. Existirá a hora exata de toda flor? De resposta tem-se quase nenhuma, quase nenhuma resposta firmemente clara e nítida aos olhos bestialmente necessitados de certezas tão humanas.

Quem atira essas flores ao chão? Quando talvez essa história seja o resumo de um momento. Sim. Como o momento de recolher essas flores ao chão. Todos os dias. O momento que seria um passo completo, talvez. Uma flor um passo, uma flor um passo. Pisando e recolhendo flores. Vou. Com francos olhos ofegantes, com francos olhos ressaltados. Pela importância do momento, o momento esperado desejado. Hei de buscar outros momentos, quando? Haverá o momento de uma música?

Quem atira essas flores ao chão? Pergunto, diante de um céu sempre carregado. E não há animais no céu. Por que? No céu apenas o reino do humano, a ilusão pelo céu que cuida e acaricia e liberta – liberta todo e qualquer humano. Quem? No céu carregado e violento, se são tantos os que a ele imploram, imploram. Ah! Exclamação. No céu onde há anjos trombeteiros. Sim. Quão bonitos são os anjos trombeteiros que anunciam cada chegada. Mas nunca a chegada da palavra, nunca. Porque talvez a palavra seja o início do adeus. A palavra que fica sempre mais próxima do humano que vive inebriante, do humano que vive tão soberbamente e indefinível aos céus.  

Se no céu não há flores abundantemente fecundadas, não há pétalas enlouquecidamente desejosas. Então o céu nunca seria uma casa: se flores e palavras nunca repousam. A agitação de cada palavra é absurda. Enquanto sei que há tantas flores bem debaixo dos meus pés. Todos os dias. Flores pungentes por essa vida tão escancarada. Flores que continuam a crescer, flores que vão pelas ramas de suas aguçadas florações. Expandindo-se. Como essa história. Todos os dias.

Quem atira essas flores ao chão? Direciono meu olhar, questiono um pouco aos céus e à morte eterna de Deus que impede sua própria viscosidade, essa palidez nítida da ausência de Deus: tem-se preguiça até de imaginar. Direciono meu olhar, quando anjos trombeteiros são tão viscosos e suas bochechas tão rosadinhas em pura cerâmica – imagens assim eternamente santificadas possuem certezas tão humanas tão humanas.

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