Em reflexos de animais, por Maíra Vasconcelos

(sol, cavalo e lua, na mesa do café, espreitam a crônica que irei escrever amanhã)

Estando parada eu vejo o sol. E assim o mundo gira enjoativamente. A lua é diferente porque seu iluminar é diretamente, e quando quer simplesmente não ilumina, sendo de fases. Os cavalos sabem disso, aliás, muitos animais identificam estas nuances entre sol-e-lua e vivem dessas sutilezas, pois pois animais não possuem espelhos. Animais não se relacionam com os reflexos de si mesmos. A elegante displicência diante da variedade em seus reinos é absurda e charmosa. Isso é algo importante e que nos faz animais tão diferentes: ter ou não espelhos. Animais não-humanos se reconhecem ao farejar, bebendo comendo compartilhando a vida ou a morte. Um passarinho bateu a cara no vidro da janela, mais uma vez o bico estremeceu e nós escutamos. Em outra janela, daqui ou de lá. O gato endoidece belo eriçado diante do espelho: fiquem longe, fiquem longe dos espelhos, meus queridos gatos imperam como reis em minhas tripas.

.Esta tarde está absurdamente quente em Belo Horizonte, 37 pingos de temperatura, a praça da Savassi é uma festa nas águas do chafariz. A menininha implora ao pai, vendedor de balas e chicletes, uma despedida nas águas públicas, o pai resiste, precisa pegar o ônibus na hora exata. Sua dedicação familiar passa despercebida pela vontade irredutível da filha.
.Aqui, nenhum desses cafés expressos servidos a R$4,90 derretem junto ao sol, fico impressionada com a sua resistência negra dura e impassível.

Posso escrever ainda muito mais descontinuamente, tomada pela fantasia irreversível. O que é uma crônica?, Rubem Braga é único, e talvez crônica seja aquilo que nunca escrevi, mas algo disso sempre um pouco pincelo. A normalidade vaga sempre tão pouco tão crespa em minhas palavras. Reluto para não cair em profundo tédio. Preciso do Delírio.

Vou ficar parada diante do sol. Acostumar-se com o esturricar é saber lidar com o dia na pata solta do cavalo. A pata do cavalo recolhe a máxima escuridão e claridade existentes no espaço-tempo, ele vive a trotar, seu andar varia entre claro escuro, claro escuro – o levantar e apoiar das patas de um cavalo é de enorme sutileza esbelta e estética perfeita. Flexionadas são o contorno de um desenho perfeito. Quando a pata se levanta e abaixa, constantemente, a luz do mundo muda em segundos.

Ai, esta indisposição ao sol tropical.

Mas fico orgulhosa e penetro no entendimento de não ser cavalo pela metade, devo estabanada espremer o dia no passo a ser colocado – claro escuro, claro escuro. Existir neste levanta-e-abaixa é primordial, como pisar a cama cotidiana e logo tomar um impulso, saltar. A cama pode ser o chão. Tem quem caia na cama e demore a entender que isso é coisa de relacionar-se com o sol. A cama fica, a gente sai e olha a chatice do amarelo insistente. Olhando mesmo. O sol precisa de um olhar firme e arregalado, a lua de limite estrábico e desconfiado. Eu possuo espelhos demais!, obrigatoriamente haverá sempre um espelho disposto em meu adiante, e com estes espelhos vejo o mundo. E, às vezes, apenas o que quero é não ver.

Refaço-me num lambido caco de vidro, ah, meu Deus, minha língua é como a de um animal!, e este vidro é sempre o resto de um espelho presente-vivo – minha língua é múltipla e delícia, pode ser a língua de um gato, ora a de um cavalo. Desenhem esta mulher que domina o arrepio envolto desses bichos: ficarei desnuda para que todos vejam a minha pele. É surpreendente evocar animais arredios, a roupa torna-se um acessório tão questionável.

Hoje falo assim, fingindo que animais me possuem e que entendo seus galopes trotes pisos e gemidos, porque preciso calar o reflexo que o mundo faz penetrar em meus olhos nus, abertos demais no corpo todo, sempre que apreendo racionalmente o mundo, o mundo reclamando suas inconclusões em mim, num caco velho de espelho quebrado. Porque Eu! já quebrei tanto espelho, mas eles continuam todos de pé. E sempre que o mundo se dá frente a frente com meu estar, preciso em animais dependurar meus cansados ossos.

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