entrando pelo cano, por Zê Carota

entrando pelo cano

por Zê Carota

o cara que veio instalar a rede de proteção (pro meu gato, no caso) nas sacadas e janelas aqui de casa usou uma broca muito grande, com o que, na parede externa da janela da cozinha, acabou furando o cano que conduz a água da rua pras caixas dos moradores, o que:

– gerou um vazamento que parecia uma nano réplica das cataratas do Iguaçu;

– com o fechamento do registro para uma solução provisória deixou o prédio sem água por 3 horas, fazendo todos os moradores, com olhares de faquinhas e venenos pra mim, me elegerem o Filho da Puta do Ano de Vicente Pires e Adjacências; e

– fez meu gato me odiar de morte pela 3ª vez em 10 dias, desde a mudança.

tá, e segue.

no dia seguinte, para dar solução definitiva ao enguiço, precisava de um bombeiro hidráulico, mas, recém chegado ao pedaço, ainda não conheço a camaradagem que faz esses serviços por aqui, então fiz o óbvio: fui a uma loja de material de construção e pedi que me recomendassem um profissional.

a atendente pegou um punhado de cartões de prestadores de serviços, desde pedreiros, bombeiros, marceneiros, passando por pintores, vidraceiros e serviços de frete, chegando a um cartão cuja oferta me deixou entre o desejo e o pavor de fazer contato: abaixo de um número de telefone, apenas a palavra “Variedades”, e gosto de imaginar que pode ser alguém que produz balinhas de coco e ogivas nucleares, e ainda sabe o segredo de Fátima, ganhando um bom tutu extorquindo o Vaticano pra não contar.

separados os cartões dos bombeiros, as opções eram: Pedrão, Sidnei (destacado em amarelo, “Sidinho”), Alaor, Brussi e Zé Trindade, e anotei seus números.

como toda e qualquer palavra, nomes têm sentido e, acredito, poder determinante para o destino de seus portadores. assim, o primeiro que descartei foi Alaor, pois me parece óbvio que, na galáxia onomástica disponível, não há nome mais próprio à garantia de excelência que se espera não para canos e registros, mas para carimbos e papel carbono dupla face – e a extinção destes últimos está diretamente relacionada ao déficit de alaores em cartórios e pias batismais. #MaisAlaorPorFavor

Sidnei não me parecia adequado, mas o apelido me alimentou aquela expectativa pelo contraste, ou seja, você não dá nada por um Sidinho, mas ele pertence àquele seleto grupo de anônimos que garante um bem tão precioso à nossa existência: a surpresa.

mas ignorei que surpresas também podem ser desagradáveis, o que ele me relembrou ao usar “top” a cada três palavras proferidas, e antes que me acusem preconceito, me deem um só exemplo de algo ou alguém “top” que seja promissor para o que for.

Pedrão foi o próximo que contatei, e nem tanto pela questão nominal, mas pelo fato de também oferecer serviços de pedreiro, dos quais também precisarei, então resolveria dois enguiços com um só profissional, mas ele não podia, pois, naquele dia, me disse, só dava atendimento em domicílio. até pensei em lhe dizer que também moro num domicílio, não numa árvore, mas deixei pra lá, temendo que, vindo, levasse o serviço – ou seja, minha casa – para fazer em sua casa, o que irritaria ainda mais meu gato.

Sobraram Brussi e Zé Trindade, e, céus, que dúvida, porque convenhamos: Brussi passa aquela firmeza do simples, da tradição que um sobrenome empresta a um comércio, donde você até consegue visualizar uma placa do tipo “Brussi – Serviços Hidráulicos. Desde 1938”, enquanto seu concorrente passa duplamente a firmeza do simples, já começando no Zé, chegando no Trindade, um ótimo nome não para um bombeiro hidráulico, concordo, mas para gerente de loja de material de construção, o que deixa tudo no mesmo segmento.

mas eu sou um romântico, e fiquei imaginando vovô Brussi, depois de 50 anos de serviços, passando a chave inglesa para seu filho, e este preparando Brussi Neto para o ofício desde o tempo em que, embora por outras razões, ele não saía do banheiro, e liguei, ele veio. chegando, me saudou:

– Seu Marcelo?

– sim, mas pode tirar o “Seu”. firmeza, Brussi?

– Marcelo. nome italiano, né? acho legal – e sorriu.

– pudera, o seu, Brussi, também é.

– nada.

– é o que, então?

– brasileiro mesmo. é que meu pai era fã do Bruce Lee.

pela resignação demonstrada, pelos modos calmos, concluí que o escrivão do cartório em que foi registrado deu sorte de ele, ao contrário do pai, não ser fã do Bruce, seus miados, pontapés e catiripapos.

e fez o serviço, revelando-se, com a licença de Caetano Veloso, tranquilo como Bruce Lee, mas, descobri somente ontem, não infalível: um cano voltou a vazar um cadinho.

segunda-feira, vou ligar pra Zé Trindade, o que deveria ter feito desde o início.

além das já apresentadas razões relativas ao nome, há uma garantia de excelência à qual deveria ter dado a devida atenção: no cartão, entre parênteses, ao lado do número do telefone, está escrito: “Tratar com minha esposa”.

difícil dar furo, noutro sentido, tratando logo com a diretoria da firma.

 

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