Escória e Pedrada, sequência, por Rui Daher

Alguém escreveu, não me lembro quem: “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Caboclo esperto, este.

Escória e Pedrada, sequência

por Rui Daher

Se bem me lembro, há poucos dias, em tempos de isolamento, sembra fare tanti anni, escrevi um texto e complementei com duas músicas para os tempos atuais. “Escória”, uma machinha de carnaval do Zeca Baleiro, e “Pedrada”, um reggae de Chico César.

Por que o fiz? Voltava ao período de ditadura e repressão que passamos entre 1964 e 1985. Não repetirei a história. As gerações mais recentes já a reconhecem, por leituras, imagens e admissão confessa da Rede Globo.

E o que aqueles anos nos propiciaram? Além de uma poderosa máquina de repressão às conquistas democráticas e ao direito de livre expressão, aí incluídos prisões, torturas, desaparecimentos e mortes, por outro lado, uma vigorosa e criativa reação das mais profundas convicções artísticas e culturais de um jovem país que, mais uma vez, se desviava do caminho compatível com a civilidade nativa e de riquezas mal distribuídas.

Muitos de nós estivemos naquela luta. Felizmente, a ponto do orgulho. No meu caso, dos 19 aos 40 anos de idade. Não sei dos demais, mas eu segui a batida, por mais 35 anos, até hoje. Seguirei até quando? Não será muito, tantas as decepções e os percalços que nos fazem entender melhor (ou pior) a finitude.

Não ousaria comparar, embora tenha dúvidas, aquele período histórico do País com o atual. Alguém escreveu, não me lembro quem: “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Caboclo esperto, este.

Talvez, hoje em dia, vivamos apenas uma farsa que não justifique reação artística e cultural tão intensa e corajosa como foi a do século passado. Mudamos? Siamo aggiornati?

Parênteses: desculpem-me, aproveitar desse idioma que tanto me fascina. Desde Giuseppe de Lampedusa, Alberto Moravia, Visconti, Antonioni, Pasolini, Fellini, De Sica, Rosselini, Gassman, Sordi, Toto e, o maior, Monicelli.

Vem Pestana, repórter do BRD, Blog Rui Daher, para incitar e excitar o jovem de 20 e poucos anos:

E le donne?

– Si, perdonami, il più desirabile. Gina, Magnani, Cardinale, Mangano, Loren, Monica Vitti, Laura Antonelli. Anche Masina.

Pensem vocês na “sexualidade discreta dessas meninas”. Explosão, porém, em nosso erotismo juvenil. Consubstanciavam, à época, corajosa linguagem artística e cultural, resposta à uma Itália, que recém saíra do fascismo de Mussolini, destroçada, na miséria, derrotada numa guerra, onde protagonizou papel subalterno à vontade nazista da Alemanha.

O mesmo aconteceu em outros setores culturais. Pesquisem esses tantos heróis. Resistência. Tanto quanto aquelas armadas.

Voltemos, no entanto, à eterna Federação de Corporações.

Rasteiro que sou, creio muitos furos pior o momento atual em que vivemos, com o governo de Jair Bolsonaro, em relação às ditaduras do século passado.

Em tudo, política, economia, sociedade e cultura, parecemos anestesiados, inermes, perplexos, diante de mediocridade bem aceita. Pouco importam as improbidades e gafes diárias. Vivemos o recôndito mais profundo da essência fascista, disfarçada em democracia, pois eleita (e mantida) pelo voto popular.

Entre 1964, admitamos, não podíamos exercer a democracia pelo voto. Estavam claros rearranjos para derrubá-los: “Diretas Já”. A economia, sob o nacional-desenvolvimentismo, crescia e investimentos públicos em infraestrutura eram feitos. A sociedade, além de beneficiada pela economia, se empoderava com movimentos vindos do exterior e, assim, se conscientizavam da modernidade. Os movimentos culturais eram de protesto.

E hoje? Apenas consegui encontrar duas músicas, a de Zeca Baleiro e a de Chico César, capazes de afetarem o fígado e oferecerem carapuça à escória bolsonarista e jogar pedras nos fascistas.

Já que não é para protestar, ofereço-lhes Dick Farney.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

2 comentários

  1. Deixemos de fora Caudilhismo Assassino Fascista, Filinto Muller, Eugênio Gudin e o Nepotismo dos Familiares do Ditador: Tancredo Neves, João Goulart, Leonel Brizola e tudo se torna compreensível. Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome