Estamos apenas a falar de beleza e de vida, por Maíra Vasconcelos

Estamos apenas a falar de beleza e de vida, por Maíra Vasconcelos

Necessito com as palavras habitar o desconhecido, falar das raridades e racionalizar o impossível. E isso é como não alcançar e também errar. Porque o erro é fundamental. O invisível fazê-lo encantadoramente palpável através da palavra. Que se sinta as almas que nos influenciam através dos tempos. E tudo isso já é criar um espaço próprio e abundante, penso.

Com as palavras tentar alcançar o que não sabemos como ou o que é. Sem querer perturbar sua forma inalcançável, sem trazer para nossas moradas o que vive tão longe e tão perto de nossos olhos. Ainda assim, continuar dizendo que Deus é uma construção muito sólida e antiga, que não abarca nem dá abasto. A presença da espiritualidade na arte nada tem a ver com nenhuma figura suprema e autoritária. Ainda que eu mesma não saiba e não entenda o que é exatamente essa espiritualidade que atravessa o processo da arte, ao menos em certos momentos. Pois, tudo isso pode ser passageiro e, talvez, uma etapa inconclusa de ideias e percepções.

Com as palavras, ver claramente o fracasso de tentar entender e descrever o que se impõe invisível a nossos olhos. Isso que diz respeito ao espiritual, sendo tão autônomo e de quereres próprios, mas que pode estar bem junto a palavra escrita. Que além de acostumada a poeiras do tempo, apesar da nascente contemporaneidade que lhe pode ser atribuída em alguns casos, não se ilude pelo simples fato de que determinadas aproximações feitas a partir da palavra escrita estão fadadas ao fracasso.

A espiritualidade na arte, às vezes, se impõe, ou a impressão que se tem é essa. E essa relação, quando acontece, é como estar a caminhar e, surpreendentemente, aparece um animal ou uma árvore que começam a andar junto também. E por se tratar de um animal ou uma árvore, não deveríamos deixar de cuidá-los. E, logo, poderiam ser parte da vida, de forma indissociável e conjunta.

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Deixar o animal ou a árvore ao abandono, seria como perder um pouco de vida. Já não sei se se trata de espiritualidade, mas de vida, com certeza. Sendo uma relação da qual não se deveria desprender. Ou até sim. Mas a escolha é entre querer a vida ou a morte, mais próximas, e em qual medida de irradiação junto ao exterior de todas as coisas.

E entre o feio e o belo, o artista talvez não possa se desfazer da beleza. Essa beleza de se ter junto ao corpo a noção de que um animal ou uma árvore estão também no caminho e junto de nossa passagem de vida.

 

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