Eu, caçador de mim, por Rui Daher

As catástrofes humanas e naturais devem-se apenas a nós mesmos, que dilaceramos o meio ambiente, o convívio fraterno, a aceitação do próximo, sejam lá seus credos, raças, convicções políticas, características culturais próprias.

Eu, caçador de mim, por Rui Daher

Há quase 75 anos tento me caçar. Saber o que fiz, faço e, aí não sei, o que ainda farei.

Assim estou há muitos anos. Nada a ver com quarentena e doenças que já tantas as tive e em outros presenciei.

Quais? Ganâncias despropositadas do ser humano, por exemplo. Prepotência dos que que se escudam sob a meritocracia, nunca comprovada em terra de tamanhas desigualdades e faltas de oportunidades.

Apesar de tanto ter tentado não, muitos se enganaram e me acharam meritório. Do quê? Sobre quem? Os milhões de brasileiros que vivem em extrema pobreza, quem agradece a Deus por, em deslizamento ou enchente, ter perdido apenas bens materiais ou, vá lá, um familiar ou amigo próximo?

Aonde, então, chegará minha crença na justiça humana ou de quaisquer divindades por vocês cultuadas?

A nova pandemia mata, destrói economias, evidencia bestas humanas, como RIP e Donald Trump, mas quantos a estão entendendo como uma terceira guerra mundial, começada, muito provável, na virada do milênio? Ficaremos entre o isolamento, não social apenas, mas humano? Ou, mais uma vez, a ciência nos trará para perto da natureza e eu poderei voltar a me caçar?

As catástrofes humanas e naturais devem-se apenas a nós mesmos, que dilaceramos o meio ambiente, o convívio fraterno, a aceitação do próximo, sejam lá seus credos, raças, convicções políticas, características culturais próprias.

Você é africano? Não? Então, cale-se sobre o continente negro. Você é caribenho ou latino-americano? Sim. Construiremos muros de separação, como feito em Berlim, após a Segunda Guerra Mundial. São incomodados por refugiados de outros continentes, just keep the way you sip your tea, como ensinaram Ella e Louis.

O quê? Muitos mortos aí no Reino Unido? Façam os garbosos bobbies desfilarem para súditos e majestades. Talvez, Sirs McCartney e Elton se escondam. Não pediriam, como fez John Lennon, substituírem aplausos por chacoalhar de joias.

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A discussão mais frequente que noto é de como voltaremos (?) da pandemia? Para mim iguais ou piores, ora bolas.

Cheiro de revolução social no ar? Home office seria transformação, ou apenas mudança que tira emprego, atividade e renda? Achatamento na base da pirâmide ou seu topo cada vez mais “mi(ni)métrico”?

Ah, bom! Em torno de edifícios mais modernos e inteligentes, gigantescos investimentos, farão voltar às atividades restaurantes a quilo, botecos de happy-hour, floriculturas para enamorados, a padaria para o café-da-manhã, os beijos e cenas de sexo nas novelas da Globo e nos filmes de Hollywood. Tanto mais. Para quando?

Na minha caçada, vejo um mundo pior, acotovelando-se para recuperar os 8,5 trilhões de dólares, que serão perdidos [sic] em dois anos.

Fora de mim, tomara estarem certos os que usam óculos com lentes cor-de-rosa, acreditam num planeta mais ameno, onde as migalhas que caem das mesas dos ricos serão mais substanciais e distribuídas entre os “não meritórios”.

A solidariedade filantrópica continuará, independente dos favores fiscais que trazem. A cultura será incentivada em favor de quem bem escreve, compõe, pinta, esculpe, fotografa, e se pretende para a posteridade.

Controlado o vírus, no Brasil, um verme fará com que todos, em suas casas, frequentem vasos sanitários, com direito a que o esgoto não flua em córregos da Brasilândia ou Paraisópolis, em São Paulo, ou nas favelas “normais” da América Latina.

Não será assim? Ora vá! Então a que serviu essa pandemia, se nada nos ensinou?

    

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