Eu quero, Serrano, por Rui Daher

Zé, precisamos de você lá no Dominó Celestial no “Dominó de Botequim”. Serafa te adorava.

Foto Ricardo Silva

Eu quero, Serrano

por Rui Daher

(dedicado ao nosso amigo Zé Portela Aguiar)

No Carnaval de 1986, um ano após termos saído da ditadura civil-miliar, a Escola de Samba Império Serrano, desfilou com o samba-enredo “Eu quero”. Representava um País já de saco cheio:

“Quero, a bem da verdade/A felicidade em sua extensão/Encontrar o gênio em sua fonte/E atravessar a ponte/Dessa doce ilusão/Quero que meu amanhã, meu amanhã/Seja um hoje bem melhor, bem melhor/Uma juventude sã/Com ar puro ao redor”.

O que pensamos teríamos: Povo bem nutrido/O país desenvolvido/Quero paz e moradia/Chega de ganhar tão pouco/Chega de sufoco e de covardia”.

Esperançosos, teríamos mais do que o singelo pedido da Império Serrano?

Sim, talvez nos 15 anos primeiros anos do novo século. Depois, a volta da desgraça, ainda pior do que os 21 anos após o golpe civil-militar de 1964.

Na época, conhecíamos suas armas, ideais nacionalistas, propósitos desenvolvimentistas. Também, o inimigo cruel e implacável nas torturas e prontos a nos assassinar. Revidamos e perdemos. Nos faltavam recursos de violência e apoio popular, este sempre ausente “no que aquilo que vier será desígnio de Deus, e nos salvará”.

Sim, neste setembro de 2020, percebemo-nos salvos. De quem? Do RIP, Regente Insano Primeiro, clã, acólitos, apoiadores? O mesmo que me confortam as obras cinematográficas de Jerry Lewis (1926-2017), gênio contra farrapos de pés incidentais da história cultural.

Rir, gargalhar, quando no outro lado está a plateia de imbecis. Confesso:  não me preocupa ser um marginal (Zeca Baleiro e Zé Ramalho).

***

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Muitos de vocês o conheceram em um sarau do Nassif. Dediquei-lhe um “Dominó de Botequim”, meio a um forró, me devolveu com um saco de farinha sertaneja. Foram muitos anos de amizade. Alguém me avisa que o sertanejo faleceu. Tantos para irem, vocês sabem, por que Zé Portela? Todos nós o abençoamos.

E, hoje em dia, paro? Zé Portela não gostaria e pediria que fosse em frente e os abençoássemos. Eu, com estes pobres textos, ele e suas referências sertanejas. Zé, precisamos de você lá no Dominó Celestial no “Dominó de Botequim”. Serafa te adorava.

Nunca saberei se o GGN o percebeu. Eu, sim.

Continuarei a ver suas cabras e vacas sertanejas e aproveitar sua maravilhosa farinha. Cânticos religiosos, folclóricos, culturais, regionais, vaqueiros, agrestes. Glauberianos!

Vá, Zé Portela, logo estarei ao seu lado, em forrós, cabras, agrestes, secas e lutas. Espere-me, pois!

Inté!

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